domingo, 21 de agosto de 2011

DIA DOS AMANTES


       
(Por Kelly Cristina Gonçalves) 

No dia dos amantes tudo era cor. Os corações alegres, sem seus antidepressivos, ardiam, como se não necessitasse de drogas ou pior, de religião.
         Suas mentes se aquietavam como se fossem corpos cansados de sexo.
         O ar era leve. A brisa de paz.
         Não havia nos jornais páginas policiais.
Não se comercializava as emoções. Era como, se só existisse aquele dia ensolarado e florido.
         As mulheres faziam cirandas, tudo era livre como o vento nos cabelos.
         Ninguém precisava correr. O tempo era o instante exato do agora.
         Como beijo molhado e gostoso, ia passando o dia.
Era fresco, mas tropical. Podia se escolher entre samba ou rock, se praia ou cachoeira.
         O banquete era público. A fome não doía. A violência não gritava.
Nas ruas passeavam os casais, inúmeros, variados, singulares. Desfilavam em trios, quartetos, turmas e duplas.
Lindos! Amados, satisfeitos.
Sentia-se o desejo pulsando, mas não havia ansiedade, pois era um desejo de gozo certo, contido apenas por prazer, astúcia.
         No dia dos Amantes, a noite era uma criança e todas elas tinham casa, escola, proteção.
         Decidia-se no congresso que não precisávamos mais de leis e as gentilezas se multiplicavam.
         As pessoas se distribuíam pela terra, agora respeitada como mãe prodigiosa.
         Os bichos não morriam no zoológico e as pessoas não se alimentavam de suas mortes.
         A voracidade compulsiva consumista cedia ao equilíbrio do socialmente justo e necessário.
         Sabíamos cuidar de nossos dejetos e não se abjetavam pessoas.
         Não havia excluídos, nem dominados. Cooperava-se. A resposta era Sim!
         No dia dos amantes, as consciências estavam prontas, todos sabiam o que fazer. Era fácil, intuitivo, natural.
         Não existiam grupos de extermínio, nem racismo, nem fascismo. Os Direitos Humanos era lógico, óbvio, salutar. Ninguém jamais ameaçaria seu amor.
         A verdade era a regra, as memórias lembravam o tempo nebuloso onde as pessoas gastavam sua libido com trabalhos estéreis, inócuos, que enriqueciam devoradores de sonhos.
         Amados, amáveis, amantes. Todos eram plenos.
Calientes as pessoas giravam a bola do mundo. Eram felizes, sendo! Vivendo, querendo.
         A canção era do Chico o arranjo de Jobim, a arte era talento de todos, trabalho digno dos melhores.
         O amor nos tornava divinos, heróis, místicos.  Não se desprezavam os velhos, a vida era respeitada em suas fases. Não temíamos a morte, pois que era apenas o por do sol anunciando a transformação do céu em estrelas.
         No dia dos amantes... tudo era Eros, Afrodite, Cupido.
SEI QUE ELE HÁ DE CHEGAR, posso senti-lo vindo no horizonte. Com a força dos que lutam, dos que sonham e dos que desejam. Não será possível detê-lo. Não haverá lobby viável, nem dinheiro comprável, a repressão não terá força.
Delicado, diplomático, engenhoso. Vira em horda, em movimento de convergência. Refará as tribos, condensará as energias.
Ninguém mais sentirá culpa, as famílias serão arranjos do cuidado e da segurança. Não serão montagens neuróticas, nem vitrines de consumo.
Mas, enquanto não chega o dia dos amantes, vamos criando, gerando, comungando o Amor.
Até lá, só há uma coisa a se fazer. Uma única ação em todo cosmo para se derrotar Thanatos: Alimentar a energia da maior força que existe.
Assim, até que todos os dias sejam dias dos amantes, vamos brincando de amor pra fazer a revolução, até construirmos a revolução pra todos brincarem de amor.
       
Kelly Cristina Gonçalves é incorrigível Amante.


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

REVIRAGITA POESIA

http://ceciliafidelli.blogspot.com/


Diego, em homenagem à você:

25 de Julho - Dia do Escritor.

Aquele...
que vira a cabeça da gente
de ponta cabeça.
É dia de festa!
Alguns,
são chamados de loucos.
E são mesmo meio loucos,
como poucos.
E ao escritor autêntico,
nem existem comparações.
São resultados de si mesmos.
Escritores,
podem ocasionar
verdadeiras transformações.
Eles se reúnem
em nossas imaginações.
Bela concentração!
Fazem-nos refletir
em mergulhos incríveis.
Enxergam longe,
sentem por antecipação.
Quando me pego carente,
por exemplo,
passo logo a mão
em um bom livro
e nos contrabalançamos
um com o outro.
Escritores, Escritoras,
me atraem,
me levam à Marte.
Geralmente se encerram em mim,
cristalizando algo,
principalmente,
em histórias:
- sonhos, realidades, ilusões.
A arte de escrever
é uma arte que traça,
marca.
Por isso marco essa data.
Porque as palavras encantam,
quando são encantadoras.
Amadurecem,
quando não são tolas,
e até entristecem,
quando são melancólicas.
Mas,
não importa a forma de escrever,
invariàvelmente,
enriquecem.
Importa que hoje é dia do escritor.
E que pra gente,
aqui, é dia de festa!

Cecília Fidelli





.................................


Obrigado, Cecília!!!!!!!!!!

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

BANQUETE SEM FIM


 (Por Diego EL Khouri)

Se por um triz
vi o céu anil
cuspindo rins

é porque quis
comer seu rim
num banquete sem fim.

domingo, 14 de agosto de 2011

ANNA ALCHUFFI - A POETISA CHULA E PROFUNDA

(Por Diego EL Khouri)

"Minha sexualidade mudou minha vida. Talvez se eu fosse hetero e não tivesse sofrido tanto, nem teria necessidade de me expressar pela arte. VOCÊ É O QUE VOCÊ SEXUALIZA TAMBÉM... Acredito nisso." Anna Alchuffi




O bar foi e sempre será o símbolo máximo da boemia e das artes em geral. O reduto dos poetas, dos vagabundos,  dos músicos, dos alienados e inclusive até dos reacionários. Nesse contexto de embriaguez e brilho lunar, conheci por intermédio de Alan Lettieri, um rapaz que conheci em Pirinópolis, uma cidade psicodélica de Goiás, com suas belas cachoeiras e florestas, Anna Alchuffi, uma poetisa única e contestadora. Entre um copo e outro de cerveja já nos sintonizamos fluentemente e a mesa, com muitos amigos ao redor, virou apenas uma conversa entre eu e ela. Falávamos de música e literatura, loucuras diversas. Pouco tempo depois já conhecia sua literatura. Primeiro com um poema que fez dedicado ao Rimbaud, o maldito escritor francês que chocou  a sociedade de seu tempo e tirou a poesia do lugar comum. Versos como “ bebendo fumando e fudendo corpos gêmeos ao meu”, “me dê uma doença sem cura, sem remédio e sem alívio”, “me queime no almoço de família” e  “me apedreje, me cuspa, me vomite e me bata” me impressionaram muito. Faço aqui não um ensaio sobre sua obra e sim a sensação que ele me causa. Poesia não é pra ser explicada e muito menos justificada. Nisso Leminski estava totalmente certo. Ela é um gozo que vem e nos envolve, nos fere e nos absorve todas as energias. Assim como o sexo. Todo ato de criação provém dos instintos sexuais como Freud nos mostra. Uma válvula de escape para o equilíbrio existencial seria talvez o equilíbrio da loucura na  produção de sua própria obra ou a absolvição das artes demais.

Existe muitas maneiras da poesia surgir numa pessoa. Não sei ao certo se o poeta nasce ou se torna poeta. Alguns estudiosos apontam a arte como uma explosão que surgi devido a algumas experiências pessoais, e a literatura seria uma das inúmeras  maneiras de representar e exorcizar a própria dor. A música, o ritmo, a  melodia e as técnicas diversas seriam simplesmente ferramentas para que esse vômito existencial saísse com mais vigor e conteúdo. É necessário para que isso flua de forma consistente,  o estudo de todos os conceitos, técnicas e as experiências atingidas pelas vanguardas, mas sem abandonar por completo os cânones da arte, essencial para o amadurecimento de toda visão psicológica transmitida de forma mais ampla, filosófica e até visceral! Anna Alchuffi é sim uma poetisa visceral. Mistura de Ângela Rô Rô, Bukowski e os mendigos da rua 84 em Goiania, da boemia da Pastelaria, dos bares sujos e dos banheiros fétidos. Mas Anna não é só sujeira e coprofagia. É também uma artista apaixonada e apaixonante, com uma voz travada , tímida ao falar, mas quando canta lembra uma  diva qualquer do blues e a música atingi altos patamares. É também uma poetisa sutil e singela. Fala dessa “mulher em forma de cintura, essa poesia em forma de música”, do whisky,  das lindas mulheres que amou; dos “universotários” nos bares falando de marxismo, com seus moicanos de punk, esperando o papai chegar com seu carrão depois de  poucas horas bebendo; fala de seu desleixo, sua revolta, suas concepções próprias filosóficas , seu “psicodélico fuminho”, seus desejos, anseios, sua negação com a elite e a academia.

Como todo grande artista, sua vida pessoal é representada e  retratada em poesia. Todos os traços da exclusão que viveu (e vive)  é demonstrada em suas belas e diretas palavras. A coragem de se assumir homossexual aos doze anos de idade, a expulsão de seu próprio lar, problemas na família, sua indignação pelo ensino fundamental, sua banda punk aos quinze anos, está tudo ali, trabalhado metaforicamente numa soma de escândalo e  loucura. A sua idéia é trabalhar com questões profundamente filosóficas mas de maneira popular e que todos entendam. É preciso chocar os reacionários. E para eles o discurso tem que ser simples.  As descobertas no  campo do erotismo chega às vezes ao absurdo. Um absurdo kafkaniano, mas com a ironia de um Nietzsche. Uma velha que sem querer, como a descoberta dos átomos ou da bomba atômica, descobre as nuances de seu corpo. De repente, como um acidente, um travesseiro resvala as entranhas da senhora e ela enfim, depois de séculos de existência, descobre enfim o calor escaldante do tesão. Depois de muitas brincadeiras masturbatórias, a velha é encontrada  morta com as pernas pra cima e com o travesseiro na genital. É esse tipo de viés que essa guria punk da MPB trabalha. O encontro irônico entre o banal, o ridículo, com o “elevado” e sublime e porque não o transcendental.

Entrar e sair de todo sistema. Falar de” xoxota” , de embriaguez, e o quanto é bom “ter buceta na boca” dentro de um evento organizado por uma igreja evangélica; falar “eu sou mulher e lésbica” e “foda-se”  em um sarau na UBE (União Brasileira dos Escritores) no dia nacional da poesia, dia quatorze de março de 2011, é coragem e é isso  que a arte e a sociedade como um todo clama. Uma utopia para alguns. Poesia tem que transgredir, tocar nas feridas, quebrar tabus. Arrotar como o canto dos ditirambos em frente as máquinas opressoras do capitalismo enfadonho e angustiante. Em vez de curar, cutucar a ferida. E a Anna, dentro desse contexto todo, absorvida nessa loucura sem pudor,  nessa podridão clássica, nesse escarro poético, nessa caganeira filosófica, nessa pureza dos sentidos, nessa inocência platônica, nessa  também leveza nas palavras, me faz reconhecer nela uma poetiza única, cheia de qualidades e que vai dar o que falar como já está dando. Minha parceira cósmica, minha irmã eterna, minha parceira do álcool e dos versos. A poesia como porrada (!) e a vida como um palco aberto na loucura da jornada inimitável como o "senhorzinho" Rimbaud nos ensinou em sua eterna juventude báquica!

sábado, 13 de agosto de 2011

GLAUCO MATTOSO, O "POETA DA CRUELDADE", PARTE II

(Por Diego EL Khouri)


No ano que Glauco Mattoso completa sessenta anos de idade tive a honra de entrevistá-lo novamente. Já ultrapassando a marca dos quatro mil e quinhentos sonetos, esse guerreiro maldito fala de poesia, sadomasoquismo, drogas, deficiência visual, cultura alternativa, etc. numa sinceridade única. Mergulhem em suas idéias e em sua arte:





Sessenta anos de existência e boa parte deles dedicada à poesia. O
que há pra ser dito nesse ano atípico?

Talvez apenas mais queixas quanto aos problemas de saude, que vão
se accumulando. Mas, si a carne é fraca (e si fica velha), a cabeça do
poeta continua moleque, revivendo as aventuras da infancia.

A podolatria em sua obra é trabalhada insistentemente com a idéia de
se caracterizar como o dominante e não dominador. Essa podolatria
excessiva é apenas tema em poesia ou é algo de fato vivencial?

Não sei si foi isso que você quiz perguntar, mas, ao longo da vida,
tanto pisei como fui pisado, no sentido proprio e no figurado. Mas,
emquanto ainda tinha visão, às vezes eu podia escolher si levaria um pé
na cara ou si pisaria a cara de alguem, mas, agora que estou cego, só
posso lamber, bem lambido, o pé de quem queira me pisar... (risos)

"A planta da Donzela", releitura da "A Pata da gazela" de José de
Alencar é uma obra que descaracteriza a moral no romantismo. Qual o
impacto que a obra causou no mundo acadêmico e de que forma você encara
o sadomasoquismo?

O livro chegou a ser estudado até como these de philosophia em
Brasilia, e acho que voltará a ser assumpto quando a editora Tordesilhas
o relançar. Quanto ao sadomasochismo, eu o introduzi no livro porque faz
parte, de facto, da minha vida, ja que um cego vive sendo escravizado...
(risos) A proposito, a Tordesilhas é o sello que acaba de publicar um
livro meu de contos sadomasochistas chamado TRIPÉ DO TRIPUDIO E OUTROS
CONTOS HEDIONDOS, uma edição luxuosa, de cappa dura, mas que tem preço
de livro commum.

De que forma você concilia o paradoxo em sua vida e sua obra, que é
a raiz de toda sua literatura?

Nem sempre é possivel conciliar o mocinho e o bandido que vive em
cada um de nós, como o certo e o errado, o amor e o odio e outras
contradicções. Mas si a gente tem consciencia da incoherencia ja é
alguma coisa...

Em algumas seleções de poemas você duelou com jovens escritores como
por exemplo Danilo Cymrot e Leo Pinto. Nessas aventuras poéticas você
sempre estava no papel do massacrado e humilhado. A função dessa atitude
de subordinação masoquista se deve a que?

Isso é um reflexo do que rola na vida real. Às vezes sou
escravizado por moleques folgados, às vezes apenas desafiado
poeticamente, mas na litteratura não fico tão por baixo quanto na vida
real... (risos)

Saiu uma conversa (inclusive em um soneto você aborda esse tema) que
logo você vai encerrar sua carreira literária. Depois de quatro mil
sonetos não tem mais nada a dizer?

São quattro mil os que apparecem no site, mas agora ja passei dos
4500. Na verdade, fallei que ia me aposentar para que parassem de me
convidar a tantos recitaes, saraus, debattes, palestras e entrevistas na
midia, coisas que me estressam muito porque exigem minha presença nos
locaes mais diversos. Mas na practica é impossivel parar de versejar...
É como tentar parar de fumar, beber, comer chocolate ou tomar remedio...
(risos)

Como é para um escritor que valorizava tanto em sua arte o lado
visual perder a visão?

Comparo essa tortura à de Sansão quando foi capturado pelos
philisteus. Sinto-me um escravo à mercê dos algozes, prompto a dar-lhes
motivo para que tirem sarro às minhas custas, mas a poesia equivale à
fé e aos cabellos de Sansão, isto é, à força vital e creadora.

Na época em que divulgava seu fanzine, o "Jornal Dobrabil", época em
que ainda não existia a internet, quais eram as ferramentas para
divulgação de cultura alternativa?

Só o xerox e o correio, no meu caso, ou o xerox e a distribuição de
mão em mão, no caso dos outros poetas marginaes que frequentavam shows,
peças theatraes, etc., com risco de prisão, porque era epocha de
dictadura e qualquer um que pamphletasse podia ser accusado de
communista.


Qual sua opinião sobre a descriminalização, regulamentação e
legalização da maconha?

Tudo é questão de preconceito. A nudez nas praias e os casamentos
informaes, com filhos de diversos paes, ja foram coisas muito
condemnaveis e hoje são vistas com naturalidade. Os costumes sempre
antecedem as leis. Só fico puto quando um usuario me critica por ser
viciado em chulé. Porra, como é que elle quer ficar livre do
patrulhamento si elle mesmo patrulha o vicio dos outros? Cada um com o
seu! Uns cheiram pó, outros cheiram colla, outros chulé, ora! Uns gostam
de fumar baseado, outros de curtir um chulezinho basico...

Qual é a função da poesia?

Para mim, desabafar. Uma especie de exorcismo, de catharse ou de
therapia, como preferirem. De quebra, ella ainda diverte os outros, alem
de desreprimir o auctor...

Qual a sua opinião sobre a nova geração de poetas?

Não posso generalizar, mas muitos não teem a menor noção de
versificação. Não que seja obrigatorio, mas até os repentistas
analphabetos apprendem regras e macetes para serem bem acceitos entre os
cantadores e chordelistas. Desrespeitar regras é direito de todo poeta,
mas elles poderiam pelo menos deixar de serem preguiçosos e podiam
estudar um pouco de versificação, é o que eu acho.

Nesse ano foi aprovado a união homossexual. Quais as consequências
positivas que isso trará?


Como no caso da nudez e do divorcio ou dos segundos e terceiros
casamentos, a lei apenas vem regulamentar aquillo que ja é practicado,
mas sempre ajuda quando algo passa a ser previsto em lei.

Como você vê esse boom do fanzine que está ocorrendo atualmente com
muitas produções, filmes a respeito, blogs, etc?

Sempre fui a favor de qualquer revival, seja no rock, no cinema, na
litteratura ou na contracultura. Como no caso do vinyl e da victrola, o
velho zine em papel nunca será substituido por technologias digitaes,
mas sim complementado e compartilhado por outros meios.

O termo "poeta da crueldade" que transferiram para você, tem alguma
coisa a ver com o teatro do horror do Antonin Artaud?

Sim, claro. Mas não só isso? tambem com o "poeta da violencia" no
cinema, Sam Peckinpah, e com a ultraviolencia de Burgess e Kubrick na
LARANJA MECHANICA. São connexões que existem entre todos os auctores
sensiveis à deshumanidade do homem.

Ainda continuar acreditando no soneto?

Sempre. Como o musico actual acredita na sonata barroca ou o
rockeiro no rockabilly, ou o sambista no chorinho.
///


A outra entrevista está nesse link:


http://molholivre.blogspot.com/2010/10/glauco-mattoso-o-poeta-da-crueldade.html 

ou


http://fetozine.blogspot.com/2011/07/glauco-mattoso-o-poeta-da-crueldade.html

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

VALEU!!!!!!!!

Foi uma honra o que hoje,  Ulisses Aesse, editor  do Diário da manhã, disse no facebook. Achei por acaso. Me deu ânimo de continuar essa luta tão penosa da cultura:

Diego El Khouri é um personagem. Poeta, artista plástico, agitador cultural, sonhador e humano. Conheci Diego na boa sorte das amizades. Tê-lo na minha coleção de amigos é maravilhoso. Diego mantém alguns sonhos. Entre eles, o blog de cultura Molho Livre. Conversamos sobre jornalismo. Passo aqui o link de seu blog, um altar de reflexão sobre a conduta artística e humanística que devemos adotar no nosso dia-a-dia.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

SEMENTE

(Por Diego El Khouri)


Somei à minha fome
a minha falta de estilo.
Viajo com os olhos abertos
a lugares incomuns.
E quanto mais o desejo aquece
e a semente estrelar fenece
 numa paz branca de neve 
vejo
 como se tudo permanecesse vivo
e só eu Morto.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

VAI AÍ UMA POESIA, UM CRIME, UM GRITO


Aí vai um poema que fiz especialmente para declamar no sarau que ocorreu domingo  em homenagem ao Paulo Leminski (dia 31-07-2011) no Centro  Cultural Goiânia Ouro, pelo selo Letra Livre, criado e   divulgado pelo kaio Bruno Dias. Sarau esse que ocorre todo último domingo do mês. 

ILEGALIDADE DOS FATOS


(Por Diego EL Khouri)

Minha língua na sua boca
enquanto o cansaço me consome
eu sinto diversas fomes
não só de comida vive o homem
ser coxa de frango
e torresmo barato
comida enlatada
na esquina de baixo
meu estômago infla
a inflação sobressai
quase não sai as palavras
vivo matando mil rimas...
isso sim é minha sina!
:matar sentimentos, histórias, meses, dias...
a iniqüidade do tempo me aniquila.

Tenho um cigarro na boca.
Vomito toda essa porra.
-- Se faço poemas? Sou mais um porco
emporcalhando os dias com meu desgosto.

Edifícios se fixam no mastro
o maço de cigarro do lado 
-- abstinência irrevogável--.
Ouço o canto do galo
o grito subalterno no pátio
a explosão dilacerante de um falo
e no meu encalço feito louco
um pit bull com asas de doido
me encurrala na privada.

Vocês não entendem!!!!!!!!!!!!!!!!!!
nem a trindade me absorve
vocês aí todos sentados
com essas caras de taxo
não percebem a poesia fluindo
é o canto da madrugada falida
o ventre exposto de crimes
a imobilidade existencial
ele falou comigo
o escravagista sangue-suga da realeza caduca
não posso sair
sou idiota de asas douradas
roubando a pílula sagrada
poesia reflete a minha alma
Marx me devolveu a madrugada
sou tolo egocêntrico sem senso de tempo.

Me sinto roubado, portanto sou ladrão
sem métrica e rima
sem beleza poética
apenas tô cagando essas grades aqui em volta de mim
limpem seus cús da mesmice filosófica platônica
mais Rimbauds na existência!!
mais sacanagem em ventres decentes!!

             L
           I
           B
               E
             R
                 D
                    A
                       D
                           E

nada  de mortandade
nossas crianças sem crime na carne
as fraturas expostas na alma
o amor acima da mediocridade.

Agora cá comigo,
não perceberam?!
Repito versos e versos e versos e palavras
numa ânsia de parecer papagaio e não gente.

Pio Vargas, poeta infame,
guerreiro do infinito,
vírus vanguardista,
deus sóbrio,
vem bebericar aqui comigo belos versos de Merda
aquela merda "marcosiana"
que senta em minha frente
e lê "pai nosso que estais no céu"
num nojo não dogmático.

Olvidaram o Ipiranga
nas plagas mágicas da cannabis.
Ela com o cabelo de fogo me paralisa no mato.
A erva entra e a fantasia sai.
Dentro da barba do Kaio todos poetas nascem.
Anna Alchuffi bebe na praça.
Todo o dia a pança incha sobre a triste vala.

Sem rima, cadência ou samba
sem o anel de bamba
a mulata e sua banha dança
dentro de minhas entranhas de dama
dança com um ritmo desumano.

Tenho útero, vocês sabem.
Diego EL Khouri, ursinho de pelúcia
da fábrica da delinquência.
Preso, assim me sinto, portanto estou.
A vida é ilegal
a poesia é ilegal
a camaradagem é ilegal
a desobediência é ilegal
a amizade é ilegal
a necessidade é ilegal
a virtude é ilegal
a sabedoria é ilegal
o conhecimento é ilegal
a cultura é ilegal
o respeito é ilegal
o corpo é ilegal
o pelo é ilegal
"Deus roubou meus sonhos!"

A minha barriga deformada
é história negada.
Acendo um cigarro na esquina de casa
vejo pernas, peitos, bundas, glandes, tíbias, fibras, vulvas, bocas mudas absurdas obtusas caladas safadas
lindas realidades
e o que sobrou?
A conversa fiada de manhã
trancafiada nesse louco afã
a ânsia de não ser são

               SER APENAS CÃO!!!


catarro amarelo no chão
fio dental preso no dente
na fome ritualística da fome poética.

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