quarta-feira, 20 de novembro de 2019

AFIADAS

Por: Carina Castro

bem sabemos manusear facas
nem sempre na cozinha, meu bem
também riscamos chão
pontiagudas
lâminas afiadas
embainhadas na coragemedo
nem sempre armas brancas
afiamos a língua na pedra
estirada qual kali
mais cortante que a aresta do papel
aveludado capim cidreira
vento frio da madrugada
e o inconfundível sabor
que vem a boca
não mais delírios de buñuel
no brilho que espelha
confunde cegueira tua
rasgar de raios ou lancinante mirada?
§

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

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Por: Mário Cavalcante

O homem em seu caminhar. O bicho em seu caminhar. A sombra em seu caminhar. O libanês em seu caminhar. O caminho. O bicho, animal. O Líbano. O Brasil. A sombra. O caminho. A instituição. O instituído. O louco. A poesia em seu caminho. A pedra no sapato. O caminho é uma pedra. A loucura atira... A pedra, o louco, o sonho, a dor, o momento. A história, o louco, a pátria, o pária, a saudade, o caminho daquele que marcha sozinho. O Diego El Khouri.

domingo, 10 de novembro de 2019

DA CALMA E DO SILÊNCIO

Por: Conceição Evaristo

Quando eu morder
a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.

Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.

Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.

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 “Poemas da recordação e outros movimentos”. 

Belo Horizonte: Nandyala, 2008.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

DIEGO EL KHOURI, ME ESCUTE

Por: Edu Planchêz 


angustiado, eu o bastião da fé,
o que arranca as rolhas das garrafas de porcelana
com as garras do olho da cara,
com as garras do olho do cu

choro não e choro, mas não reclamo do tempo,
das algemas quebradas, dos pela-sacos desses dias,
dessas noites medievais, onde não sou o centro,
o sumo do limão siciliano

eu antena de temporais
antenas da cara do gato,
da cara do cão, do lobo destruidor de presídios,
do bob dylan jim morrison
múltiplo e único dessas pálidas páginas

e continuo sendo verme,
aracnídeo, crustáceo maldito por querer,
e eu quero, mais que quero porque sou cada vez mais desejo,.
portal aberto na fenda das vozes

eu edu planchêz de tantas teias,
de tantas pertubações expostas latentes,
acho que sou livro,
instrumento distribuindo choques

terça-feira, 5 de novembro de 2019

UM CÉU DIÁFANO

Por: Rogério Skylab

Uma nuvem diáfana percorria o céu
seguida por muitas outras.
E eram tantas que pareciam ilhas
flutuantes a singrar mares.

Iam ao sabor dos ventos
até formar um continente,
cuja língua todos conheciam
e era um bálsamo para os ouvidos.

Assim ele ia divagando
enquanto a ambulância não vinha.
E já nem sentia suas pernas esmagadas

sobre o calor insuportável do asfalto.
Um pivete aproveitava para roubá-lo
e ele para mirar o céu diáfano.

#0480 PRAIEIRA PICHAÇÃO

Por: Glauco Mattoso

A praia nordestina sua cor
turistica perdendo vae, fetiche
frustrado. Quem mais querem que se lixe
com isso? O morador? O pescador?

Emquanto falta a alguem o que suppor,
alguma venenosa lingua -- Vixe! --
fallou que foi navio do "Greenpiche"
da mancha de petroleo o causador.

O povo, de mãos nuas, limpa a praia
que dessas negras ondas ficou cheia.
Nenhum moleque experto que alli caia
livrar vae sua pelle, nem a alheia.

Um delles seu pé limpa, até que saia
tudinho, pela mão que lhe tacteia
a sola: mão dum cego que, cobaya
fazendo-se, addemais, a massageia.

(4/novembro/2019)
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segunda-feira, 4 de novembro de 2019

POR MÁRIO CAVALCANTE

Diga-me o que é justo nesse mundo? É somente isso que temos pra hoje?
Entre notícias de tédios e jornais incendiários, há derramamento de desesperanças em jardins coloridos e selfies enquadradas em padrões de business
Eu noctívago de convulsões e engasgos insones, saborosas ansiedades q empanturram ansiosos bocejos...
Sangue sobre o asfalto e o solo, os corpos diversos daqueles q estão à margem da velha obtusa ordem do opressor
A vergonha em espantalhos sob vernizes de igualdade
Sonâmbula repetição de um toque, tão superficial e maquinal, muito mais q um algoritmo, são corpos q ardem em fogo, que queimam, que sofrem, que apaixonam, e não se encaixam nesse projeto de mundo que é uma solidão de simulacros fantasmagóricos em suicídios
Pausa. Inconteste. O destino da humanidade. Humanos sem destino.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

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Por: Simone Gomes Firmino 

Nasce ali. Ali onde? Qualquer lugar. Embaixo de uma ponte. Na calçada. Em lote baldio ou com muita sorte no leito de um hospital público. Sorte? Não há sorte. Público? Não há público. Ou melhor há público, este para presenciar o espetáculo do descaso. Descaso de quem? De quem deveria assegurar a segurança de nascer. É assim quando se nasce pobre, preta ou mestiça no país do carnaval. A pobreza e a pungente escravidão se tornam também um espetáculo assistido por um público, agora diferente, um: respeitável público! Veio a esse mundo para que? Não sei. Dançar talvez. Entremeio às literalidades sufocadas, de fato dançar. Dançar o que? Samba. Catira. Pagode. Forró. Axé. Frevo. Capoeira. Dança conforme a música? Sim e não. Posso dançar seguindo os passos dos meus ancestrais ou posso dançar criando meus próprios passos. Não é escolha. Porque escolha não tenho. É reexistir. É reconstruir. Mas, o que não existe? Eu. E o que foi destruído? O meu direito de ser gente. Alice! Alice! Quanta tolice!

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

NAM MYOHO RENGE KYO


Por: Diego El Khouri

O budismo entrou na minha vida e nada é por acaso. Existe a lei da atração. A imagem do Buda sempre fez parte do meu imaginário desde criança. Anos mais arte, mais precisamente no ano de 2009, estudante do curso de Filosofia da Nova Acrópole em Goiânia, tive mais contato com a história do Sidartha Gautama e a ideia do equilíbrio me impressionou muito. Sempre fui um poeta explosivo e uma pessoa impulsiva. Tatuei na pele o Buda e busquei, com tropeços no caminho, o equilíbrio que me faltava (ainda estou à procura). Em 2012 me mudei para o Rio de Janeiro, a convite do poeta cancioneiro budista Edu Planchêz  . Foi uma viagem convulsiva e cheguei no Rio cheio de problemas psíquicos e de saúde (só essa jornada daria um texto surreal e que pretendo, um dia, escrever sobre). Morei em um ap no bairro de Jacarepaguá e participei ativamente da cena artística do Rio. No mesmo apê morava o ator e clown Nélio Fernando, um paulista muito talentoso , o baiano de Feira de Santana Carls, estudante de cinema da UFRJ e a atriz carioca Gisela Macedo (também budista). Edu e Gisela me apresentaram o budismo de Nitiren Daishonin, que dentro das linhas budistas, foi um grande revolucionário. Foi perseguido, exilado por defender um budismo para todos e que qualquer pessoa poderia chegar à iluminação, tanto os plebeus e as mulheres (algo inaceitável para a época). Fui em reunião budista, mas insubmisso e desconfiado, não aprofundei na época. Em 2016, já de volta à Goiânia, de forma não muito consciente, comecei a praticar o Daimoku (mantra dessa linha budista) e comecei a pintar os quadros mais transcendentais de minha vida. Havia de forma implícita toda a carga de uma existência vivida nessas obras. O "budismo de mochila" dos beatniks (principalmente de Jack Kerouac e Allen Ginsberg) se mesclavam com as ideias de Nitiren e a busca pelo Sutra de Lótus. Essas obras expus em 3 lugares em Goiânia ( Galeria e Cultura e Cidadania do Procon, na 588 Art Show e também na Vila Cultural Cora Coralina) com o título "Estudos sobre o Tempo". A ideia da não linearidade do tempo trabalhadas pelo Proust e Bergson, foram fontes de pesquisa desse trabalho. Passei uma fase de aprendizado, conquistas e minha arte dialogando em vários lugares do Brasil e no exterior, com exposições elogiadas e criando diálogos interessantes com o público e obra. Precisava achar um local que pudesse estudar e praticar de forma mais sistemática o budismo. Com duas exposições em cartaz, e com uma vida intensa nas artes, entro na Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás. Nesse espaço conheci uma moça, estudante do mesmo curso, e que descobri depois, que acompanhava o meu trabalho nas redes sociais. O nome dela é Nathália Eloá, uma moça talentosa e que nasceu praticamente dentro do budismo de Nitiren. Ela inclusive junto com a Emily fizeram um trabalho sobre minha arte para uma disciplina da Faculdade (esse material se encontra no youtube e no blog elkhouriartes.blogspot.com). Me apresentou o local e recebi o Gohonzon para a prática do Daimoku (esse texto é apenas um relato sobre minha relação com essa filosofia). Algumas tempestades aconteceram no percurso e sempre algo me impedia de consagrar o Gohonzon. A vida profissional e pessoal entraram em colapso, o fascismo mostrou novamente sua face no Brasil (e no mundo) e me deixei abalar por essas tormentas. Hoje, enfim, dia 28 de Outubro de 2019, consagro o Gohonzon e uma nova etapa da minha existência se inicia. Agradeço aos deuses pelo momento inesquecível. Nam myoho renge kyo


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segunda-feira, 21 de outubro de 2019

MEU LIVRO FAVORITO


Por: Wagner Nyhyhwh

-Você está sempre lendo esse livro.
-Pois é.
-Já tá em que página?
-Na 200.
-É sobre o que?
-Não sei.
-Já está na página 200 e ainda não sabe sobre o que é o livro?
-Sim.
-Por que então continua a ler?
-Porque estou achando interessante.
-Como pode achar interessante se nem sabe sobre o que é o livro?
-Por isso está interessante.
-Quando terminar você me empresta?