domingo, 2 de agosto de 2026

5 poemas de Ana Cristina Cesar — (1952-1983)




houve um poema

que guiava a própria ambulância
e dizia: não lembro
de nenhum céu que me console,
nenhum,
e saía,
sirenes baixas,
recolhendo os restos das conversas,
das senhoras,
"para que nada se perca
ou se esqueça",
proverbial,
mesmo se ferido,
houve um poema
ambulante,
cruz vermelha
sonâmbula
que escapou-se
e foi-se
inesquecível,
irremediável,
ralo abaixo.


***

COMO RASURAR A PAISAGEM


a fotografia
é um tempo morto
fictício retorno à simetria

secreto desejo do poema
censura impossível
do poeta

***

deus na antecâmara



Mereço (merecemos, meretrizes)

perdão (perdoai-nos, patres conscripti)

socorro (correi, vaiei-nos, santos perdidos)



Eu quero me livrar desta poesia infecta

beijar mãos sem elos sem tinturas

consciências soltas pêlos ventos

desatando o culto das antecedências

sem medo de dedos de dados de dúvidas

em prontidão sanguinária



(sangue e amor se aconchegando

hora atrás de hora)



Eu quero pensar ao apalpar

eu quero dizer ao conviver

eu quero parir ao repartir



filho

pai

e

fogo



DE-LI-BE-RA-DA-MEN-TE

abertos ao tudo inteiro

maiores que o todo nosso

em nós (com a gente) se dando



HOMEM: ACORDA!



3.7.69

***

Aventura na Casa Atarracada

Movido contraditoriamente
por desejo e ironia
não disse mas soltou,
numa noite fria,
aparentemente desalmado;
- Te pego lá na esquina,
na palpitação da jugular,
com soro de verdade e meia,
bem na veia, e cimento armado
para o primeiro a andar.

Ao que ela teria contestado, não,
desconversado, na beira do andaime
ainda a descoberto: - Eu também,
preciso de alguém que só me ame.
Pura preguiça, não se movia nem um passo.
Bem se sabe que ali ela não presta.
E ficaram assim, por mais de hora,
a tomar chá, quase na borda,
olhos nos olhos, e quase testa a testa.

***

Poema para você ler

Leia-me entre as linhas
onde os silêncios se confundem
com os gritos que não quero mais ouvir.

Talvez eu esteja esperando
que alguém adivinhe
o que nunca pude escrever.

***

* Ana Cristina Cesar (1952–1983) foi uma poeta, tradutora e crítica literária carioca, considerada um dos principais nomes da poesia marginal brasileira. Sua escrita combina linguagem íntima, fragmentária e sofisticada, misturando poesia, cartas, diários e reflexões sobre a própria literatura. Publicou livros como Cenas de Abril, Correspondência Completa, Luvas de Pelica e A teus pés, sua obra mais conhecida. Morta aos 31 anos, deixou uma produção breve, porém decisiva para a renovação da poesia brasileira contemporânea.


* O Molho Livre é um blog cultural independente criado em 12 de outubro de 2010, dedicado à divulgação da literatura, poesia, artes visuais, quadrinhos, música e cultura underground. Desde sua fundação, mantém uma atuação contínua na valorização da produção artística alternativa, abrindo espaço para autores consagrados e novos talentos, sempre com independência editorial e espírito crítico. Mais do que um blog, o Molho Livre tornou-se um importante arquivo vivo da cultura marginal brasileira, resistindo há mais de quinze anos como um território de liberdade de expressão, experimentação estética e difusão da arte fora dos circuitos convencionais.