quarta-feira, 13 de junho de 2018

FUNKADELIC SESSIONS

Fui  convidado a fazer a   curadoria  dos  poemas  que fariam  parte de um mural em um  evento  no Mondo  Coletivo (local  que  já expus  minhas telas  e   também pintei um grafite).  Esse  evento  teve  como  tema o movimento Afrofuturismo e  todos os   poemas  escolhidos  são  de autores   negros  e  negras  do  Brasil todo.  

Diego  El Khouri

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Abaixo as fotos  e  os  poemas:


* "O Afrofuturismo é um movimento estético que põem os negros como protagonistas no passado, presente e futuro englobando música, cinema, literatura, moda e artes plásticas. É também um movimento politico de fortalecimento e resgate de identidade."

















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RELIGIÃO

 (Waldo Motta)

A poesia é a minha
sacrossanta escritura,
cruzada evangélica
que deflagro deste púlpito.

Só ela me salvará
da guela do abismo.
Já não digo como ponte
que me religue
a algum distante céu,
mas como pinguela mesmo,
elo entre alheios eus.
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CRIOULA

(Alzira Rufino)

eu sou crioula decente
não sou vil
estou nas cordas
em equilíbrio

de um brasil
a minha cor apavora
essa raça agride ouvi dizer
não é nos dentes do negro
não é no sexo do negro
é na arte do negro
de viver
melhor dizendo

sobreviver
com essa coisa que arrasta
o tronco que tentam esconder
mas esses troncos existem

no conviver
os troncos estão nas favelas
vejo troncos nas vielas
nas moradias fedidas

nas peles sem esperança
nas enxurradas de não
no jogo das damas e reis
eu me perdi

nas rotas dos estiletes
nas celas e nos engodos
negro carretel de rolo
querem fazer um mundo

__________

(Mazinho Souza)


tempo não se decifra
em calendários
rumos não se edificam
em vigas lógicas

é mais por incertezas
que se compõe um sábio
que por filosofia do destino

fome nunca pede cardápio
e se a vida for este contrato
não assino 

__________

(Rafael Vaz)

Ela vira o corpo
em sentido a mim e
conta a última aventura
por qual ela passou.

95% das mulheres que conheço
não sente atração por mim.
Sempre fui um bom amigo.
Digo a ela que há tempos
torcia por ela.
E por isso toda vez que
que eu andava na rua
as pessoas mudavam de calçada.
Poemas de amor também
podem falar de quando
não se é amado.
Então você traga o beck
e joga toda a fumaça no meu rosto.
Incrível como eu viajo e
você continua intrigada com
o joguinho do seu celular.

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(Marisa Vieira)

 Negra Vieira 

Sou mar
sou terra
sou ar
da atmosfera


sou rara
sou fogo
cara a cara
abro o jogo


poeta
riso franco
negra
em terra de branco

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Palhaço 

(Clarisse da Costa)

Cada palhaço carrega com sigo
Dores
Nos disfarces de seus risos;
No picadeiro da vida
Não passa de um menino
Fazendo graça 
Para o outro ri. 
Os borrões da sua história 
São manchas
Das cores 
De suas tintas,
Das lágrimas contidas;  
De lindos sonhos
Que o mundo não 
Permitiu sonhar!

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SUBSTÂNCIA VIVA

(Sarah El Khouri)

Seguir na contramão de uma série de falsas verdades,
Induzir minha substância para deliberação.
Construir-me contra o que me curva ou me exalta.
Ser inteira ciente de que não sou ainda completa.
Reconstruir-me e embora sob escombros
ter consciência de tudo que o me liberta.

Sou constituída de tanta agregação turva,
embora a simplicidade extravase
o que há de mais vivo em minha natureza.
Sou um amontoado de ruas curvas, precipícios,
ladeiras, construções inacabadas, céu azul safírico.
Sou sonhos cessados, loucuras expostas,
devaneios sentidos, alegrias mortas,
feridas abertas que anseio por curar,
chagas que não evito fuçar embora sinta dor...

Sou o pensamento distante enquanto tomo café.
O devaneio inteligente enquanto bebo cerveja barata.
O olhar doce enquanto fito quem amo.
A nostalgia silenciosa num domingo parado.
A mudez sagrada quando olho o crepúsculo.
A nudez, a pele, o corpo clamando por outro.
O otimismo ativista por um mundo melhor.
Em mim há o palhaço, o triste, a santa, a vadia, o louco.

____________

 DIA DOS PROFESSORES 

(Dalberto Gomes)

A ti, Mestre 
O legado de Deus 
De ser a bússola, a luz o archote 
Da  sabedoria e educação 
Para iluminar caminhos obscuros do ser 
Dando lume ao saber. 

A ti, professora que luta no dia a dia 
Nos longínquos estéreis sertões 
Que percorre árduos caminhos 
Entre lágrimas de esperança  e decepções 
Como heroína nunca titubeou 
Em buscar novos corações 
Abraçando a divina profissão que acolheste 
Na qual se coroou. 

A ti, tia 
Carinhosa, hospitaleira,
Injetas nas mentes dos infantes a luz derradeira 
Luz esta que iluminará o homem do futuro 
Clareando caminhos e destinos 
Direcionando-os a glória e a perfeição 
Conquista, independência e liberdade 
Dando o livre arbítrio e sapiência para toda a eternidade. 

Mestre ... 
De hoje, de agora, de sempre 
Minha emoção, saudação e louvor 
Desculpas (pelas bagunças), saudade e carinho 
Neste dia a ti consagrado 
Dedico-te... 
        Meu fraterno amor. 

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ZUMBI SALDO

(Elisa Lucinda)

Zumbi, meu Zumbi.
Hoje meu coração eu arranco
Zumbi hoje eu fui ao banco
E ainda estou presa
Escuto os seus sinos
e ainda estou presa na senzala Bamenrindus
Presa definitivamente
Presa absolutamente
à minha conta
corrente.

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 OXUM MENINA

(Fátima Trinchão)

À beira dos rios,
À beira das lagoas,
Córregos,
Cachoeiras,
Lagos e lagoas mansas,
Oxum Menina
E canções,
Oxum canta,
Oxum encanta,
Oxum reina,
Oxum manda,
Oxum brilha,
Ora iê iê ô
Oxum Divina,
Traz-me o vento
O seu canto doce,
Perene,
Pungente,
Como carícia
Leve e macia
Que nos penetra
E inspira,
Ora Iê iê ô
Oxum Divina,
Ora iê iê ô
Oxum Menina!
E no fim da tarde
Morena,
Nas águas doces
cristalinas,
É a sua voz
que ouço,
Ora Iê Iê ô
Oxum Menina!
E quando percorre
A brisa,
O leito do rio,
Serena,
Murmurando oração
A Maria e a Jesus,
Coro de Anjos
nas Alturas
resplandece
ao canto seu,
Oxum Divina,
E toda  luz,
Ora iê iê ô,
Oxum Menina!
Quedam-se todos
a ouví-la,
O seu canto
e o seu cantar,
Nas águas doces
serenas,
repletas de forças
plenas,
Oxum vive,
Oxum reina,
Ora iê iê ô,
Oxum Menina,
Ora iê iê  ô,
Oxum Divina.

__________


  e dos meus beijos
a saliva

(Jarid Arraes )

te olho derramada
escorrendo 
em contraste
no lençol
absorvida
e quero cada poro
induzindo melanina
desmedida

preta,
você tem a textura
qua arrepia
meus pelos
tem o toque
que desperta
meus peitos

e meus olhos
transbordam
um tesão
que é espelho.

___________

Cartográfica

 (Carina Castro)

de distâncias traçadas entre sonhos
passos e pousos
redimensiono o interior do meu interior
e a brevidade entre pensamento e pensamento
não acompanha o vagar do corpo
entregue ao manejo da maré
nem o vagar da garrafa ondulando sobre os dias
entre soluços de bêbado e pranto
encontraste a carta, mas não entendeste a letra
e não há legendas, coordenadas, vozes,
mapas para minha memória
dói fundo a longitude de meus garranchos
perdidos no efémero de um idioma
ilegível entre latentes caligrafias, alfabetos
e não vês no céu
a constelação com meu nome
não podes ler minhas mãos
e latejando minhas letras dizem
teu futuro, te dão leme
leem tuas digitais
no leme, no copo, na garrafa
só não traduz a lancinante latitude
do teu entendimento
envias de volta um papel em branco

________________

Ela, eu, e o parabéns.

(Gessica Borges)

Então ela vem
De uma vez só
Muita vezes
Na rua, no quarto, enquanto olho para as paredes
Ou amarro meu turbante
Vem em forma de um cômodo vazio
De um lembrança cheia
Ou de um simples fumante
Alheio a tudo.

É súbita e aguda
Como quando a gente bate o dedo mindinho num canto
E são muitos cantos agora
E a dor não cessa nunca
Só se esconde entre risadas
E volta escancarada
Em lágrimas de saudade

Um quarto de século de vida
Três meses destituída
“Filha, deus te abençoe, muitos anos de vida”.
A dor vem
Eu engulo o seco e respondo
Para todo mundo
Obrigada, gente.

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 ANTÍTESE

(Jenyffer Nascimento)

Pediram um corpo escultural
Eu não tinha.

Quiseram uma mulher ignorante
eu já tinha lido o suficiente pra me proteger.

Sugeriram que não opinasse em assuntos de homem
Eu nunca consenti em calar.

Disseram que eu fosse esposa
Eu não quis casar.

Discursaram que as mulheres são frágeis
Eu não tive tempo de exercitar fragilidades.

Orientaram que não freqüentasse bares
Eu não pude negar as esquinas.

Quiseram controlar meu jeito de vestir e falar
Eu não vi sentido em deixar de seguir minhas vontades.

Apostaram que eu teria um subemprego
Eu vislumbrei ir mais distante.

Transaram comigo e depois fingiram não me conhecer
Eu aprendi a ignorar os imbecis.

Disseram que eu não amamentasse para o peito não cair
Eu amamentei até cair.

Submeteram meu corpo e meu psicológico à violência
Eu me juntei a outras como eu para superar.

Compraram vaidades para que eu me adequasse
Eu envaideci aprendendo palavras de ordem na luta.

Exigiram fidelidade e submissão
Eu rompi por amor próprio.

Cagaram mil e uma regras de conduta
Eu mandei pra puta que pariu
E sorri, feliz.

 ______________

(Lubi Prates)

 ser mulher é uma bênção
ser mulher é poder gerar & poder parir
ser mulher é ter buceta, dois seios, uma bunda grande

ser mulher é
ser loira, olhos claros, nunca descabelar-se
é ter sangue escorrendo entre as pernas & não deixar que percebam mesmo que

você corra
você nade
você dance

ser mulher é uma bênção
e desde a Bíblia é ser apedrejada queimada morta
uma contradição

eu descobri agora que
não sou mulher

estou viva
nunca queimada
nunca apedrejada

eu descobri agora que
não sou mulher

sou negra, sou apenas uma negra

e o sangue que vem do meu ventre
permito que seja rio
que volte pra terra e

corro
nado
danço

descabelo-me

eu descobri agora que
não sou mulher

eu tenho pinto
apenas um seio
quadril estreito

nunca pari

eu descobri agora que
não sou mulher

ser mulher é uma bênção.
__________

identidade

(Ryane Leão)

foi uma mulher negra e escritora
de pele e alma como a minhai
que me ensinou
sobre os vulcões e as rédeas e os freios
sobre os tumultos dentro do peito
e sobre a importância de ser protagonista
nunca segundo plano

se você encostar a mão entre os seios
vai sentir os rastros de nossas ancestrais

somos continuidade
das que vieram antes de nós

eu sou um monte de
constelações
brilhando e ardendo
mas nem todo mundo
sabe ver

ou só vê a parte que arde
ou só vê a parte que brilha

você é uma frase bonita
dessas que a gente sublinha no livro
faz tatuagem, conta pra todo mundo
dessas que dividem  a gente
em antes e depois

um dia
decidi ser eu
e nunca mais
voltei atrás

da vida
eu quero
poemas
orgasmos
almas entrelaçadas
batimentos livres
trocas sinceras
e revolução

 ___________


CALAFRIO

(Miriam Alves)

O sorriso gela
a porta do paraíso prometido

A tarde cobre-se de frio
grita
esconde-se atrás dos
casacos
faz esculpir aquela saudade
do lugar
jamais percorrido.

Escorrem feito sorvete
as esperanças derretidas
no ardor do querer.

_________

Raízes do porvir

 (Domingos Florentino)

Trago a nódoa do passado
no punho do presente
transponho montanhas na minha luta
de juventude tragada
na convulsão dos tempos
em busca do Futuro

Trago a nódoa do passado
na serra dos dentes procuro paz
sobre o crepitar de corpos insepultos
na noite de tragédia
grávida de esperança

Trago a nódoa do passado
nas raízes do porvir
venho de longe
gritando meus anseios
em cansaços semeados
disperso no tempo

Trago a nódoa do passado
no cântico ao Futuro
planto amor
sobre o drama da flor violentada
no chão do meu País

__________

TAL QUAL CORDA BAMB

(Diego El Khouri)

eu atravesso oceanos
na calda de ninguém
mamute que destroça cimento
nos dentes de marfim no ouro de alguém
eles são fuzis
fezes
sangue coalhado de criancinhas famintas
acolhidas pelo crack
lembro muito bem
aquele  inverno de 2004
porres incompletos, beijos frívolos
Rimbaud sobre a mesa
e paredes
muitas paredes
se fechavam cada dia mais
pela masturbação proferida a ti
naquelas madrugadas
de torcicolo brutal
eu agarrando estrelas
numa minúscula cama suja de sêmen e bílis 
tal qual corda bamba
cometas em festa comum

ah madrugada!!
o que poderia dar a ti
se de mim roubaste tudo?
lamentaste a sina bandida
que és
levaste tudo embora
inclusive meus crimes
e as dívidas de mercado
para sucatear meus sonhos
que viraram cicatrizes na barriga
e apendicite supurado

são inconfundíveis
os olhos dessa terra
 esses meninos nos sinais
a implorar migalhas
que a sociedade atropela

corpos descartados
deixados de lado
minoria nojenta
fede e tritura
qualquer pensamento
de libertação

ah madrugada
dos sonhos impossíveis
trouxeste a quimera que pedi?
quero sexo em ventre e alma
a tentação me veja como alvo

e me beije a face mil olhos
de  vulcão, tempestade, estrelas
é tudo a mesma coisa
o mesmo cheiro

pelos, entranhas
língua na língua
descobrir teu corpo
alimentar tua sina

ó madrugada linda
que clareia meus olhos
és amor e paixão
misturadas com fogo e pele

nos marcaram como gado
trataram de espalhar nossas dívidas
 nos apunhalaram pelas costas
e rasgaram  nosso tratado
vilmente sem repeito algum
a nossa história

madrugada insonsa
covarde
as palmas de minha mão
cobrem orelhas
ajoelhado no centro da cidade
uma chuva torrencial
lava meus cabelos e minha alma

não há motivos para acreditar
no pai nem no estado
me fala a luz dos semáforos
repleta de mentiras e sonhos

não creio em inferno ou pecado
a poesia comportada
muito menos em gêneros comprados

porta voz das portas escancaradas
e venenos tóxicos
eu desafio as regras lambendo  feridas
desconexas 
do outro lado da moeda (!!!)
(ninguém me ouve, ninguém me vê)


assim espero.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

"SUICIDADOS PELA SOCIEDADE"



Por: Diego El Khouri


Esses espectros agitados, será o pensamento
Do poeta embriagado, ou suas saudades, ou seu remorso,
Esses espectros agitados em turba cadenciada,
                                 Ou  bem são simplesmente mortos?
                                                            Verlaine


     Espectros sombrios no "torniquete da consciência". "Delirium Tremens diante do paraíso". Palavras submersas no seio da imaginação, subvertendo e criando. Asas cortadas, mutiladas perante paredes calcificadas de merda.Trincheiras de guerra  e prisões subalternas, — tristes aparições nas pegadas frias da noite. Artistas na diáfana lucidez, libertos  /translúcidos (vorazes palavras de intensa sensibilidade), espécies de xamãs, na qual "as pessoas projetam suas fantasias e elas se tornam reais"... Asas cortadas...Voo razante de rapina... Peito aberto feito ferida... O olhar visionário e as "portas da percepção" blakeanas... todo um arcabouço de lamento e dor... Quantos "cientistas do imaginário" não terão sofrido injúrias, descasos em vida e miséria financeira para enfim na posteridade gozar de privilégio e estímulo?  Quantos não caíram de joelhos perante a grandeza transformadora das artes e se viram com as chagas  do sacrifício imposto perante essa sociedade cada vez mais mecanicista e pragmática? Quantos, em vida, foram vistos como meros energúmenos fracassados para então após a morte "se transformarem" em gênios? Antonin Artaud foi um desses seres dilacerantes e "estranhamente talentosos". Poderia citar inúmeros outros; nomes não faltam (Van Gogh, Camille Claudel, Allen Ginsberg, Carl Solomon, Gustave Flaubert, etc.). Sensibilidades a frente de sua época. Normalmente pessoas não convencionais, pouco atreladas ao conformismo e modas vigentes de determinado período e com um poder de criação, reflexão e ruptura acima de níveis comuns, podendo sim alterar realidades e percepções, ultrapassar fronteiras e criar novas teias de conhecimento. Incomodam poderes, chocam burguesias estabelecidas e agridem as normas de qualquer crença religiosa-hierárquica. Estão portanto, propícios às críticas, lançados aos turbilhões insanos  levados muitas vezes a total incompreensão. Antonin Artaud conhecia isso tudo. Sentiu na pele todos esses dilaceramentos, "a via crúcis do corpo e da alma"...

     Antonin Marie-Joseph Artaud nasceu em Marselha em 4 de setembro de 1896, filho de um empresário de transportes marítimos e descendente de gregos, tanto pelo lado materno como paterno. Considerado o pai do teatro moderno, teatro esse chamado também de "teatro da crueldade", dedicou toda sua vida para expressar uma visão acerca da “verdadeira e imortal liberdade”. O teatro, campo de diálogo, catarse e crítica, seria o motor para empreender através do corpo uma liberdade que chocava e proporcionava a sede do viver. Uma vida emergida em intensidade e chamas. 

Apesar das cartas que escrevia fossem a sua forma de  expressão preferida (estas ajudavam na sua luta pungente em permanecer lúcido), Artaud teve uma vida cultural agitada, dedicando-se ao cinema, teatro e  a literatura. Aos 19 anos fez sua primeira internação em um sanatório, passando toda uma vida em sucessivos tratamentos psiquiátricos. Em 1937 foi internado no sanatório Le Havre-Rodez, onde passou nove anos e escreveu as Cartas de Rodez. Nas cartas pedia para médico eliminar o tratamento de eletrochoques. Foi em Rodez que Antonin Artaud escreveu, por exemplo, em 1945, o livro "Viagem ao País dos Tarahumaras", lembranças de suas viagens pela Sierra Tarahumara, no México, no intuito de conhecer a tribo com o mesmo nome. Sua jornada foi um misto de criação e dor, ruptura e internação. Outro nome que se aproxima dessa mesma metafísica foi o artista plástico holandês Van Gogh (1853-1890). Este dizia que a pintura estava cravada na sua pele. Assim se referia a esse ofício. Tinha uma visão sublime de entregar-se ao além, a Deus e as forças primordiais da existência. Inquieto resolveu tornar-se pastor como seu pai e foi reprovado em teologia no ano de 1878. Partiu para Bélgica com  o objetivo de evangelizar os trabalhadores de uma mineração de carvão.  Conheceu a extrema pobreza e começou a viver com os pobres. Fazia do chão sua cama, das pedras o travesseiro. Sua falta de banho, que o fazia ter um cheiro muito desagradável, incomodava as demais pessoas e seu jeito taciturno assustava a população local. Viveu com paixão tais  buscas. Na pintura posteriormente viveu também dessa forma. Pintou mais de 800 telas em vida apesar de ter ingressado  tarde nessa arte. Durante os últimos 3 anos de sua vida chegou a pintar cerca de 500 obras e  em seus últimos 69 dias deixou sua assinatura em até 79 delas. Situações dramáticas acompanharam toda sua existência até dar por fim sua própria vida quando  ele disparou uma arma contra si mesmo em 29 de Julho de 1890 ("mas existe uma versão recente onde se plantou que o disparo foi efetuado acidentalmente por dois rapazes que brincavam com uma pistola"). Uma alma inquieta, sedenta, ardendo em febre.

     Para alguns artistas "vida e arte não pode ser dissociada". O elemento de criação parte de dentro para fora interagindo e mesclando no olhar sutis gradações de sensações que mesclam realidade e sonho. O mergulhar em si mesmo é tarefa difícil, para poucos. Só esses párias para compreender na plenitude tais vicissitudes . Artaud entendia muito bem isso e não foi atoa que escreveu a obra "Van Gogh — Suicidado pela sociedade."  É "preciso penar muito para chegar na essência". Artaud diz que oartista plástico holandês  foi empurrado para a morte pela sociedade. Essa sociedade que não  entende e excomunga tais sensibilidades. Em Paris no ano de 1947, poucos dias antes da abertura de uma exposição de Van Gogh, o galerista Pierre Loeb pediu ao  Antonin Artaud que escrevesse sobre o pintor. Essa obra vem pra afirmar  o espírito do olhar "não familiar" (usurpando um termo do psicanalista Sigmund Freud) dentro dessa sociedade mecanicista. As dores causadas e o sentimento de exclusão dentro desse caráter social foram empecilhos que sofreram   grandes nomes  das artes ao longo da história. Dizia o Artaud : “Durante muito tempo me apaixonou a pintura linear pura até que descobri Van Gogh, que pintava, em lugar de linhas e formas, coisas da natureza morta como que agitadas por convulsões." Essas convulsões  e a potência elevada de suas criações e, por consequência, dessa sensibilidade à flor da pele, causou (e causa) essa ideia do louco, do mártir, do excluído dos demais. Nesse trabalho, Artaud faz sua defesa própria usando a figura do pintor.  Não há loucura, nem delírio; é a sociedade que sempre está um passo atrás dessas grandes "sensibilidades selvagens". 

quarta-feira, 23 de maio de 2018

SER TÃO... DIMENSÕES MÚLTIPLAS!

Por: Joka Faria

Por entre as canções de Caetano Veloso, nos seus setenta e cinco anos. Lanço uma flecha no espaço, dança a mulher maravilha diante de mim.
Ítalo Calvino chega a mim numa flecha quântica, crianças brincam ao contemplar o voo dos urubus. Na era de aquário, um poema inquietante de Ricola, torno-me mutante. Dialogo com a poética de Edu Planchez. Mergulho nos quadros e na poética de Diego El Khouri. Ser tão dimensões múltiplas. E Deus e a Deusa dançam dentro do meu coração. Cantemos a vida, tarde de agosto, um sorvete de queijo no intervalo de um estudo de concurso. Mergulho nas páginas do livro e diante de mim, Marco Polo e Kublai Khan ali vivos num texto de Ítalo Calvino.
Interconexões no viver. Cantai-vos ó pássaros da vida e alguém posta no face o tempo de brigar e o mesmo de amar. Escolhemos entre amar e brigar. A vida corrida do povo que acorda nas madrugadas, trens, ônibus e o cansaço. E cadê a poesia para esta gente? Quem se encontra numa meditação? Viver entre trabalhar e não trabalhar. Sentir-se vivo como cantou Caetano “SEM LENÇO NEM DOCUMENTO”, afinal não temos nada. Nascer, crescer, viver amar e morrer e novamente eternidade afora. Quando daremos um salto quântico?
E Deusa e Deus estão dentro de nosso coração esperando serem sentidos e amados. Os poetas Sufis cantam ao amado pai que está em segredo.
Ser tão múltiplas dimensões
A cidade plena na manhã de uma quinta feira nada de telefonemas para ver o sorriso das crianças e o chorar pela mãe. Nas canções do Bola de Meia, as crianças se encantam. OUVEM o Bola e as canções de Beto Quadros, lindamente apresentada sua arte por uma professora às crianças.
Sorrimos ao Sol de Agosto, cade a chuva? Promessas para ver o Mar? Promessas para ir a Mantiqueira? E concursos e mais concursos e sempre “sem lenço e documento”, “pelado pelado nú com a mão no bolso” como canta Róger no Ultraje a rigor.
Cadê aquela saia vermelha e você mulher dançando para mim. E uma linda mulher dança no instagram, nem sei qual música. Nunca vi o dançar Sufi, danças circulares, cirandas, Gaia dança e faz gerar universos.
Ser tão… Venezuela, Brasil. O desamor não deve suprimir o amor!
América uni-vos em torno da liberdade de seus povos. Dancemos ciranda nas escolas, criemos uma educação que liberte como no sorriso de uma professora no jornal Hoje.
Ser tão…
Dentro de mim entre o morrer e o renascer, Fênix fênix fênix. Eis Deus e Deusa a dançar dentro de mim. E quando daremos o salto quântico?
Ser tão…
Minha alma clama por Ser!
Eu cansado, devemos resurgir como a AVE FENIX. Ser tão… Ser tão… Ser tão…

terça-feira, 22 de maio de 2018

OUVINDO MORPHINE

Por:Edu Planchêz 


e tudo que guardo nas fronteiras do que penso,
cabe num grão azul de luz,
numa jarra de néctar de jenipapos,
nas gamelas esculpidas por meu pai na lama da casa,
e você nem sabe que um dia sem noite paira nos escombros,
nas palhas que se movem
e para o mistério do que escrevo,
preciso convocar o sufi malungo diego el khouri
para que destampando seus olhos
e os outros olhos do que não sei descrever
se revele no desintegrar dos fantasmas
para lá das muralhas da sala,
para lá das muralhas do ventre,
dos carcomidos livros...
há algo sem sombras na pele da neve,
na pele dos amigos,
no cone das coisas que cabem na geometria
da porta que se abre agora
que escrevo ouvindo morphine

segunda-feira, 21 de maio de 2018

PELAS VOLTAGENS DE JACK & JACK

Por:Edu Planchêz

acendendo um, dois traços,
o filete da lâmpada,
o nosso aparecimento no mundo
nas camadas do chão de cal escuro,
do chão perfeito dos que pendem para a esquerda,
para o centro da molécula do café
haendel de peruca branca, bem sério,
nos observando de uma capa, de uma estampa,
do alto do grão de arroz
e a casa sempre nos espera,
chuvosa de livros,
fogão clamando por panelas ferventes
minha fêmea aprende uma das máximas de lou reed,
a que nos chama para o parque dos selvagens,
da selvageria
os remos aqui estão,
sigamos para o rumo dos albatrozes,
nos encontremos com jack london aqui mesmo,
em luna dourada,
nos arredores da cidade arte,
nas páginas de suas histórias
diego el khouri movido pela máquina vida
nos arrasta pelos pântanos,
pelas voltagens de jack & jack

quinta-feira, 17 de maio de 2018

POR FAVOR ME CENSURE

Por Wagner Nyhyhwh

por favor
me censure
ou encherei sua buceta de pintos
encherei seu pinto de bucetas
encherei seu cu de bucetas e pintos.
por favor
me censure
ou te seduzirei
e te acusarei de zoofilia
pois não passo de um animal afinal
animal só às vezes racional.
por favor
me censure
ou te darei um filho
e te acusarei de pedofilia por amar nosso filho.
por favor
me censure
ou só vou parar
quando seu tendencioso-conceito acabar
em outras palavras
não vou parar.
por favor me censure
antes que comece da minha não-arte a gostar.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

ILUMINAÇÃO


Título: Iluminação
Técnica: óleo s/ tela
Dimensão: 50 x 70 cm
Artista: Diego El Khouri


terça-feira, 8 de maio de 2018

DAIMOKU


Título: Daimoku
Técnica: óleo s/ tela
Dimensão: 50 x 70 cm
Artista: Diego El Khouri