terça-feira, 8 de agosto de 2017

POEMAS DE RAUL SEIXAS (1945-1989)

Eu Preciso de Ajuda

Para todos os insonemaníacos da Terra
Eu quero construir um tipo novo de máquina
Para voar de noite saindo do corpo
Ela ganhará prêmios de paz, eu sei disso
Mas eu mesmo não posso fazê-la
Estou exausto, eu preciso de ajuda

Admito meu desespero, eu sei
Que as pernas em minha pernas estão tremendo
E o esqueleto quer sair do meu corpo
Porque a noite de pedra já está concreta
Eu quero alguém para içar uma imensa roldana
E içá-la de volta sobre a montanha
Eu preciso de ajuda

Porque eu não posso fazer isso sozinho
Está tão escuro aqui fora
Que estou cambaleando
Rua abaixo como bêbado
Se bêbado não sou, talvez aleijado
Eu preciso de ajuda.

Poesia Sem Título (1981)

Papel de presidente dos USA
De Reagan seu melhor papel
Enquanto a conta aumenta, Brasil
A Amazônia ainda aguenta
A Rússia não quis emprestar
Dinheiro em troca de um campo de aviação
São doze pistas de pouso
E, em troca de ouro, prata e carvão

Se eu falo é tupi-guarani
Que lindo sotaque o daqui
O português é puro Latim
Nada de tupiniquim
Nada de Rio Ipiranga
Nem de margens plácidas
Precisou um portuga, xará
Pra gente estar no ponto que está.


Areia da Ampulheta (1981)

Eu sou a areia da ampulheta
O lado mais leve da balança
Cão vira-lata amordaçado
Fusca entre cadilacs
Morador do lado errado
Revólver de espoleta

Mais um do bloco dos sabotados
Da trovoada o pára-raios
Dos trovões
E lá vou eu , examinando
espionando
Vou tachado
Sou pesado - empacotado
rotulado
lacrado e despachado
numerado e condenado
censurado e ultrajado
Meu povo!
Como nos deixamos cair
em tamanha abjeção??


Poesia Sem Título (1981)

Enquanto o galo canta
De madrugada
O cigarro queima
No cinzeiro , a mosca
Zumbe no silencio quarto
Onde minha mãe trêmula
Escreve o que me requer
No papel em branco
Duma frágil culpa
Duma consciência barata tonta
Cheia de moinhos para fazer girar...
Minha filha dorme.


Magia de amor

Me fascina tua morte mal morrida
E a tua luta pra ficar em tal estado
O teu beijo, tão fatal, nunca me assusta
Pois existe um fim pelo sangue derramado

Me fascinam teus olhos quando brilham
Pouco antes de escolher quem te seduz
E me fascinam os teus medos absurdos
A estaca, o alho, o fogo, o sol, a cruz

Me fascina a tua força, muito embora
Não consiga resistir à frágil aurora
E tua capa, de uma escuridão sem mácula

Me fascinam os teus dentes assustadores
E teus séculos de lendas e de horrores
E a nobreza do teu nome, Conde Drácula

Sangrilégio (1970)

Eu acordo de madrugada
Eu acordo com quase nada
Areei meus dentes
Penteei os cabelos
Enxaguei meu rosto inchado
Me armei da 007
Me meti no paletó
Quase me enforquei no nó
Da minha gravata
Um beijo na minha mulher
E dezessete beijos e meio
Um em cada filho meu
Meninada que eu tenho estima e afeição
Eu sou bancário
Meu banco é de sangue
Eu sou bancário
Os olhos de Drácula
Pousam sobre mim
Firme , na escuta do PBX.

Poesia Sem Título (1972)

Eu não pertenço ao domingo ensolarado
Meu pijama branco e largo
Que eu arrasto pela sala
Pela sala de jantar

Já não m`importa , o que m`importa nesse instante
É o meu vagar constante
Sob o peso dessa estante
Que eu vasculho até dormir

Meu quarto escuro sob os olhos de coruja
Boca seca e roupa suja
O coração se enferruja
Ao contato do verniz

Eu não pertenço nem à flor nem à espada
Tenho é u`a fome desgraçada
Minha cara engarrafada
Mais parece um guaraná


Poesia Sem Título (1979)

Quero que venhas depressa
O tempo é pouco
Careço de partilhar meus delírios com você
Conheço lugares jamais penetrados
Misto de poeta e pirata
Só os loucos são capazes de voar
Não tenhas receio de mim
Quero Te levar aonde estou
Como poderei mentir-lhe
Se eu sou somente o que sou?


Esse Negodiamô


Sem concepção de tempo,
O papel já terminou
Você vê que nada ficou
Sem poder dormir você pensa em fugir
Mas não há pra onde ir

Lá trancado no porão
Que é escuro mas é clara sua visão
Daquilo que você tanto esperou
Não passava de um sonho
Sobre esse negócio de amor
Doeu na hora que você acordou
Ao som agudo de um despertador
Mais barulhento que o apito
Do guarda abrindo o sinal.

Você procura entender,
Sabendo que não há porquê
Tudo é apenas o que é
Vai morrendo firme em pé
Você vê que não sabe de nada
Você louco e ela calada
Ela foi linda e clara esta noite
Inevitável, claro o açoite
E a dor foi mais que demais

Tudo que cê aprendeu desde que você nasceu
Embora sempre cê desconfiou
Que a gente é gente e é isso aí
Mas no entanto cê esperou
Sei lá, um milagre ou coisa assim
De repente o punhal
Mostrando as frestas do que é
Aí se entende o que é morrer
Estando vivo pra saber
Que cê não passa de um guri

Sua mente flashbacka atrás
aos catorze anos ou pouco mais
As meninas coloridas de batom
de rouge de risadinhas freteiras
Eram todas tão iguais
Sempre elas e sempre o rapaz
Transbordando de amor
Preferi ser escritor sem mesmo sequer saber
Que eu também queria amor
Como um susto bem pregado
De repente vi que tinha esse negócio mesmo
De estar apaixonado
Vi o mundo do outro lado

Tudo tão certo e tudo tão errado

Óculos Escuros

Esta luz tá muito forte
Tenho medo de cegar
Os meus olhos tão manchados
Com teus raios de luar
Eu deixei a vela acesa
Para a bruxa não voltar
Acendi a luz de dia
Para a noite não chiar
Já bebi daquela água
Quero agora vomitar
Uma vez a gente aceita
Duas tem que reclamar
A serpente está na terra
O programa está no ar
Vim de longe, de outra terra
Pra mirder teu calcanhar
Esta noite eu tive um sonho
Eu queria me matar
Com dois galos a galinha não tem tempo de chocar
Tanto pé na nossa frente que não sabe como andar

Quem não tem colírio usa óculos escuros
Quem não tem papel dá recado pelo muro
Quem não tem presente se conforma com o futuro!

Vivian (Maio 1981)

Os olhos verdes que não puxaram a seus pais
Perninhas grossas no molde bem-feito da mãe
No mês de maio entre as flores nasceu ViVian
Em casa seu nome é "pipoca"
De tanto aprontar
Talvez muito dengo da vó e do Beto
Só quer a quentura do peito e do braço da mãe
ViVian!
Antes de ser batizada sorri para os anjos do céu
Do céu, da sua boca pequena
Com cheiro de flor igualzinha ao pai
da Vivian!
Fica zarolha olhando,
Aprendendo o que olhar
Fralda borrada, uma outra golfada
e um gargalhar...
Riso banguelo e eu me acabo de lhe amar
ViVian! oohh ViVian.


Para O ESTADÃO (1983)

Está na praça, já chegou
O dicionário do censor
Desde A até o Z
Tem o que você pode ou não dizer
Antes de pôr no papel
O que você pensou
Veja se na sua frase
Tem uma palavra que não pode
Você não queria assim... mas que jeito?
O dicionário do censor
É que decide , não o autor
Um exemplo pra você
Se na página do "P"
Não consta a palavra "povo"
É porque essa não pode
Vê se no "o" tem escrito "ovo"
Ovo pode...
Se o sentido não couber
Esqueça , risque tudo, compositor
Seu dever é decorar
As que pode musicar
No dicionário da censura
Nem botaram "dentadura"...



Pai Nosso da Terra (1981)

Pai nossa que estais na Terra
Simplificado seja o vosso nome
Está em mim o vosso reino
Que seja minha a vossa vontade
Bendito ou maldito
Se o que eu mato eu como
O pão nosso de cada dia
Dai sempre ao bom merecedor
Não perdoai ao devedor
Nem livrai o fraco do mal
Com vosso poder habitai na alma dos fortes
Senhor da máfia, deus dos deuses!
Pai nosso da Terra
Nada vos imploro, nada vos rezo
Mantende comigo vossa espada
Pai nosso da Terra!
Livrai-me da maldição dos fracos
AMÉM.



Eu Sou Apaixonado Por Você (1983)

Você não se penteia nem se pinta
- Eu sou apaixonado por você!
Você futuca a cara de espinha
- Eu sou apaixonado por você!
Você emagrece d'uma hora pra outra
- Eu sou apaixonado por você!
Engorda quando come macarrão
- Eu sou apaixonado por você!
Você é moça e tem bigode
- Eu sou apaixonado por você!
Você me crobra caro o seu amor
E nem é do tipo que eu gosto
- Eu sou apaixonado por você.

Poesia Sem Título (1984)

Estou sofrendo
Não compreendo nada
Nada me motiva
Tudo são repetições
Continuo bebendo
Estou infeliz
Preciso de alguém que acredite em mim
Não sei o que é ter fé
ordem , autoridade ou verdade
Respostas - perguntas
Três esposas vi partir
Não gosto de mim
não acredito em mim
Um vazio enorme
Inseguro
Solitário
Incapaz de lidar com o cotidiano
Cansado de ser
autodestrutivo
Desesperado
Tendências suicidas
Odeio meu rock`n`roll
penso em morrer...

Apesar dos Pesares (1887/1988)

Vou gostar de você
Como gosto do mar
Mergulhar em você
Me perder
Me encontrar.

Ai, como é linda essa vida
Apesar da miséria
Apesar dessa fome
Aquele beijo com gosto de coca
O meu coração bate e toca
Vale a pena viver.

Poesia Sem Título (1988)

Você roubou meu videocassete
E disse que foi um assalto
Você não quer deixar minha casa
Dizendo que empatou quatro anos de sua vida
Trabalhando como esposa.

Estão é assim que você se revela
Você nunca foi fiel a si mesma
Gênio ou poeta a sua fotografia
Vai se revelar na grande mentira que você é
Pra você mesma
Só você mesma sabe que não tem talento pra vida.

De Bom-Tom

O guia cita Caetano
Mostrando Santo Amargo,
as mãos em círculos
Tão dolente
Tão emoliente
Sob a chuva leve,
que filtra
É a água estelar destes versos
Murmura fluxo irrevogável
"Então, Senhor , Soa agradável?"
Um aceno de cabeça
"Sim, ... como não..."
Bahia tem má memória
Na discoteca dos burgueses agora
Deus em pessoa o determina
Caetano impresso em microssulcros
Agradável!
Tomar batida de limão
Enrolar um cigarro
e acompanhá-lo em voz alta
com langor.
Venerar Veloso
é de bom-tom!
Agradável?
Dos silos da memória
Tiro minhas lembranças,
não as suas
Veloso jamais te agradou
Estranho, como tudo mudou
Ele não se amoldava
ao umbral
Dos preceitos falsamente virtuosos
Ao contrário, abusava do fumo
Era para vocês amoral
Faço um julgamento em base?
Torces a cara...
Não é mesmo agradável?

Matou-o de lento estertor
Tudo isso , senhores
Matou-o tudo que o agredia
Como zombarias por trás da geral
Do Cinema Olimpia
Matou-o sua moral tacanha
Queimando-o por dentro
nas entranhas
Vocês são amigos do charro
Como Veloso
e de panças repletas
comandaram o assassínio dos poetas
para depois citá-los



Poesia Sem Título (1978)

Pássaro negro
Corvo, por certo,
Solitário
Me olho de soslaio
Do muro do cemitério
Aí , eu olho pra ele
Fixo
Ela voa embora,
Mas volta.

I Need Something (1979)

Yes, I need something
I always need something
If it's a love
Or if it's a drink
Oh hell, i don't know
I just need something.

Eu preciso de alguma coisa
Eu sempre preciso de alguma coisa
Se é um amor
Ou se é um drink
Ó diabo, eu não sei
Só sei que preciso de alguma coisa

Tá faltando alguma coisa
Sempre tá faltando alguma coisa
Se é de mudança
Se é de esperança
Ó diabo, não sei
Só sei que tá faltando alguma coisa

Essa insatisfação que a gente sente
Ou solidão permanente
Tem que estar faltando alguma coisa.

Poesia Sem Título (1979)

Quero que venhas depressa
O tempo é pouco
Careço de partilhar meus delírios com você
Conheço lugares jamais penetrados
Misto de poeta e pirata
Só os loucos são capazes de voar
Não tenhas receio de mim
Quero Te levar aonde estou
Como poderei mentir-lhe
Se eu sou somente o que sou?

Poesia Sem Título (1979)

A casa de meu pai tem quatro quartos
A dupla que fez cada um de nós
Não gostaria de ver meu pai
Sem seu terno largo e folgado,
Nem mamãe sem seus velhos ditados
Seu mundo tão correto
Eu não me arvoro a mexer
Aquela sala de estar sempre arrumada, polida
E que nunca é usada
Não há nada pra trocar de lugar.
Daqui , bem longe de lá
onde faço meu lugar
Entro uma canção e um café expresso
Me falta a presença daquela gente
Meu velho conselheiro
Minha velha protetora
A falta de me entregar acriançado
Alegria de escutar a relíquia
De um disco antigo, mas inquebrável
O canto de ninar.
Quando volto para lá não levo roupas estranhas
Visto-me de filho
Traje especial do qual não me disfarço.



Treinando Compor

Não quero mais amor
Nem quero mais cantar minha terra
Me perco nesse mundo
Não quero mais o pau Brasil
As rosas que eu colho
Não são essas frementes na iluminação da manhã
São, se as colho, as dum jardim contrário
Nascido desses vossos
Na leiteira ou no bar a tarde se reparte
em iogurtes, coalhadas, copos
São quatro horas da tarde ou da manhã
Em algum mês que não me vem à cabeça
Tenho trinta e oito anos e uma angústia
Amo a vida que é cheia de crianças,
de flores e mulheres...
A vida. Esse direito de estar no mundo
Ter dois pés e duas mãos, uma cara
e a fome de tudo... a esperança
Esse direito de Kika e demais
que nenhum ato institucional
ou inconstitucional
Pode cassar ou legar.
Meus quantos amigos - gente presa
Quantos cárceres escuros
Onde a tarde fede a urina e terror
Existem muitas famílias sem rumo
Essa tarde nos subúrbios de ferro e gás
Brinca irremida a infância da falada
classe operária
Estou aqui!
O espelho não guardará a marca deste rosto
Se simplesmente saio do lugar
Ou se morro... se me matam...
Um dia eu parto
Que importa pois?
A luta comum me incendeia o sangue
E bato no peito
Como o coice de uma lembrança.



          QUERO IR
          Quero ir
          Quero pouca espera
          Quero ir pela primavera
          Quero ir
          Seu pensar já era
          Quero ir
          Quero, Quero, Quero,
          Quero, Quero, Quero,
          Quero, Quero ir.
          O sol daqui é pouco
          O ar é quase nada
          A rua não tem fim
          Eu volto pra Bahia
          Ou para Cachoeiro do Itapemerim.

 COMETA EXPRESS
          Já entrei vinte vezes no escritório do psicanalista
          Depois paguei o médico e depois fui ao dentista
          Pra ver o que eu tenho e não consigo dizer
          Perguntei a toda gente que passava na rua
          Ao patrão, à minha sogra, a São Jorge na lua
          Mas nenhuma dessa gente conseguiu me responder
          Por causa disso eu fui pra casa e fiquei pensando
          Se era eu que estava errado com as minhas maluquices
          Ou se era todo mundo que estava me enganando
          Arrumei a mala, deixei as perguntas na minha gaveta
          Procurei saber o horário do próximo cometa
          Me agarrei em sua cauda
          E fui morar n´outro planeta


sábado, 5 de agosto de 2017

CONTO

Por: Jaqueline Nascimento

Tínhamos combinado de nos encontrar, almoçar e tomar uma cerveja, só isso. Era pra ser só isso! 
Pela primeira vez eu estava diante dele sem pensar em sexo.
No que já tinha rolado entre a gente, no que poderia rolar...
Realmente, daquela vez estava naquele apartamento só pra comer a velha lasanha de micro-ondas e tomar a cervejinha de sempre, que claro, me deixou um pouco "alegre" demais.
Meu primeiro pensamento foi: VOU FAZER MERDA, não fiz, estava tranquila em relação aos meus desejos.
Não estava com intenção alguma de transar naquela tarde, naquele lugar.
Até eu perceber os desejos dele, o tesão q já estava percorrendo o seu corpo. Como resistir a isso? Eu ainda não sabia, não sei!
Quis aguçar o q nele já existia, era notável, quase palpável, e claro, eu aproveitei.
Comecei então um jogo de excitação, perguntas, carícias onde eu já sabia que ele não teria outra alternativa, a não ser ficar de pau duro.
Comecei a masturbá-lo...
— Rápido ou devagar?
— Rápido 
...
— Quer que eu continue te masturbando, ou te chupe 
— Chupa!
Eu obedeci, do meu jeito, mas obedeci...
Queria excitá-lo mais, não queria simplesmente enfiar seu membro em minha boca, e só.
Passei um tempo só lambendo, lambendo... de cima pra baixo, de baixo pra cima, só na cabeça.
Por fim chupei com vontade, com gosto.
E ele lá, correspondendo minhas expectativas, segurava minha cabeça pelo os meus cabelos e controlava a intensidade das chupadas.
Eu já estava louca pra ser devorada, queria muito ser penetrada por ele.
Queria continuar chupando aquele pau por horas, mas a vontade de foder não me deixou.
Fui pra cima dele, pedi que me fodesse com tudo.
Sim, ele obedeceu o meu pedido...



quinta-feira, 3 de agosto de 2017

POR: EDU PLANCHÊZ

Diego El Khouri... a foda da foda da foda... 
são tuas artes vividas... 
fico me achando pequeno frente aos poemas perfeitos 
de joão cabral de mello neto, 
mas não passará de um momento;
a gente que joga ou brinca ou briga com a emoção,
se assusta com a frieza do irmão poeta de Recife



 ***
Da esquerda para a direita: Ícaro Odin, Diego El Khouri e Edu Planchêz (pai do Ícaro) no bairro Freguesia; Rio de Janeiro. Por volta de  2013, 2014.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

SONETOS DO GLAUCO MATTOSO



SONETO REMONTANDO A 1951


Minha cronologia principia
no dia de São Pedro. De glaucoma
já nasço portador, mas, nesse dia,
só querem que se beba e que se coma...

Sou neto de italianos, e a mania
é dar diminutivos: no idioma
de Dante, sou Pierin. Me oferecia
um brinde o bisavô, que vinho toma...

Pierin, ou Piergiuseppe, dura pouco.
Já sou Pedro-José. O ouvido mouco
não é, mas um dos olhos já pifava...

Na foto, faço gestos algo obscenos,
unindo dois dedinhos: já pequenos,
mostravam a revolta: "Vão à fava!"


****

SONETO REMONTANDO A 1999

Me veio sem aviso: após o gozo
noturno, entre uma insônia e um pesadelo,
percebo que a memória é poderoso
recurso e que preciso conhecê-lo...

Sucedem-se os sonetos: volumoso
parece ser o veio... Em breve, o selo
Ciência do Acidente dum Mattoso
febril publica a praga, o berro, o apelo:

Entre uma "Centopéia" e uma "Geléia
de rococó", completa "Paulisséia
ilhada" a trilogia que hei criado...

Começa a nova fase, que não finda
nos mil, nem nos dois mil, pois muito ainda
virá calar quem quis me ver calado...

***

Soneto 49
Versátil

A crítica que tenho recebido
é quanto ao tema, não quanto ao formato:
"O Glauco trata só de pé e sapato,
ainda que use o molde mais subido."

Respondo antes de tudo por Cupido:
comigo ele jamais teve contato.
Além do mais, não vou deixar barato
que assunto algum me seja proibido.

Sou cego mas eclético, e versejo
acerca de problemas tão diversos
que nem forró, barroco e sertanejo.

De grandes e pequenos universos
é feito o pé que cheiro, beijo e vejo:
A Ele presto conta dos meus versos.

***



Soneto 73
Obsessivo

O gosto pelo pé ficou mais forte
depois que as trevas foram preenchendo
o fundo do meu olho, neste horrendo
martírio, mais agônico que a morte.

Agora nem desejo a mesma sorte
que alguns outros mortais prosseguem tendo
de conviver a dois, e só me entendo
servindo a qualquer sola de suporte.

Só penso nisso, em sonho ou acordado.
Masturbo-me na tímida ilusão
de amanhecer debaixo dum solado.

Aquele que em rosto dá o pisão
é sempre um tipo mal-acostumado,
e nunca a projeção duma paixão.

***



Soneto 26
Lírico

Dizem que o amor é cego e a carne é fraca,
mas só amei alguém quando enxergava.
Hoje a cegueira queima como lava
e o coração resiste a qualquer faca.

Ontem tesão, agora sóressaca.
Foi-se a paixão que fez minh'alma escrava.
Se inda me queixo dessa zica brava,
sou caçoado e passo por babaca.

Nem tudo está perdido: resta o cheiro
que invade-me as narinas quando passo
na porta do vizinho sapateiro.

Vá lá: o papel que faço é de palhaço.
O olfato é meu recurso derradeiro
e o cheiro do fetiche o único laço.

***


Ensaístico [241]

Chamemo-la de fase iconoclasta,
à minha poesia antes de cego.
Pintei, bordei. Porém não a renego.
Forçou-me a invalidez a dar um basta.

A nova não é casta, nem contrasta
com velhas anarquias. Só me entrego
ao pé, onde em soneto a língua esfrego.
Chamemo-la de fase podorasta.

Mas nem por isso é menos transgressiva.
Impõe-se um paradoxo na medida
da forma e da temática obsessiva:

Na universalidade presumida,
igualo-me a Bocage, Botto e Piva.
Ao cego, o feio é belo, e a dor é vida.

***

 SONETO 274  PACIFISTA (GR)
Apelos pela paz são comoventes:
Parece até que toda a raça humana
ou quase toda, unânime, se irmana
na firme oposição aos combatentes.

Campanhas e cruzadas e correntes
envolvem muita mídia e muita grana,
mas nada se compara à força insana
do génio armamentista em poucas mentes.

Pombinhas, flores, nada disso importa
na hora da parada militar,
se acharmos que o perigo bate à porta.

A fim de protegermos nosso lar,
deixamos que haja tanta gente morta,
mas não aqui: só lá, noutro lugar.

***

SEGUNDO SONETO SÁDICO

      Nos “120 dias de Sodoma”
      o Mestre prioriza a merda pura,
      que consta do menu como mistura,
      e sempre há no banquete quem a coma.

      A merda é náusea em cor, sabor, aroma.
      Comê-la é só um requinte de tortura
      que põe papas e reis de pica dura
      enquanto o povo a prova em França ou Roma.

      Na época, o Brasil, colonizado,
      pagava a Portugal todo seu ouro
      e, em troca, o Alferes era esquartejado.

      No século atual, quem lambe o couro
      é o cego, num sapato já mijado
      e sujo até de letras do tesouro...”

***

SONETO 951 NATAL
Nasci glaucomattoso, não poeta.
Poeta me tornei pela revolta
que contra o mundo a língua suja solta
e a vida como báratro interpreta.
Bastardo como bardo, minha meta
jamais foi ao guru servir de escolta
nem crer que do Messias venha a volta,
mas sim invectivar tudo o que veta.
Compenso o que no abuso se me impôs
(pedal humilhação) com meu fetiche,
lambendo, por debaixo, os pés do algoz.
Mas não compenso, nem que o gozo esguinche,
masoca, esta cegueira, e meus pornôs
poemas de Bocage são pastiche.

***

 SONETO ESCATOLÓGICO

      “Cagando estava a dama mais formosa...”
      Assim falou Bocage num soneto
      do mesmo naipe deste que cometo
      sobre a reputação que a merda goza.

      A crítica a compara à rara rosa
      se obrada na miséria dalgum gueto.
      Políticos proferem-na: “Eu prometo...”
      e a mídia a tematiza em verso e prosa.

      É tanto incompetente apadrinhado
      fazendo merda e sendo promovido
      que, quando comecei o aprendizado,

      pensei: “Que seja próprio o seu sentido,
      porque já me enojei do figurado!”
      E então fui rei da merda com que agrido.

***

PARA UMA DANÇA A DOIS

Um meia-nove é fácil que nem valsa.
Ficamos, eu p'ra cá, você p'ra lá.
Aqui na cama, o espaço sempre dá.
Espere eu só tirar a minha calça.

"Rancheira", antes chamavam. Está é falsa.
A verdadeira é "Lévis". Mas não vá
mudar o nosso assunto, porque eu já
estou notando o tênis que vê calça.

Na valsa, tinha até patinadores,
mas neste nosso rock é só botina
e tênis. Só variam, mesmo, as cores.

Papai-mamãe é chato, pois termina
depressa. Um meia-nove tem sabores
tão fortes quanto a meia ou quanto a urina.

***


SONETO 251 QUANTITATIVO

Centenas de sonetos são legado
de nomes tidos como monumentos.
Apenas de Camões, mais de duzentos,
registro que é por poucos superado.

Não fossem os Lusíadas o dado
que faz dele o primeiro entre os portentos,
ainda assim Camões marca outros tentos,
e, entre outros tantos, este é consagrado:

"Sete anos de pastor", o vinte e nove,
que, se não for mais belo, é o mais perfeito,
a menos que em contrário alguém me prove.

Mas, como dois é dom, três é defeito,
também um "Alma minha", o dezenove,
ocupa igual lugar no meu conceito.
***
Glauco Mattoso, pseudônimo  de Pedro José Ferreira da Silva, ( São Paulo, 29 de Junho de 1951) é um escritor brasileiro. 
Seu nome artístico é um trocadilho com glaucomatoso, termo usado para os que sofrem de glaucoma, doença que o fez perder progressivamente a visão, até a  cegueira total em 1995 . É também uma alusão a Gregório de Matos, de quem se considera herdeiro na sátira política e na crítica de costumes.

* Link das duas entrevisats que fiz com Glauco Mattoso: http://coletivozine.blogspot.com.br/2013/07/glauco-mattoso-o-poeta-da-crueldade.html

sábado, 29 de julho de 2017

ORO PARA OS ESPÍRITOS DAS ÁRVORES

Por: Edu Planchêz


----------------------------------
oro
para os espíritos das árvores,
emergido no mel, 
ajoelhado no pólen

oro
para os espíritos das árvores,
movido pelas correntes,
pelas alvas bocas
oro
para os espíritos das árvores,
escondendo estrelas nas mãos,
pássaros no umbigo
oro
para as árvores das árvores,
umedecido pelo vinho,
largado nos lajedos
oro
para os espírito das árvores,
amando o café,
perdido nas sementes
oro
para o espírito das árvores,
digno de coroas de transparentes,
de abraços aborígines

terça-feira, 25 de julho de 2017

5 POEMAS DO RAFAEL VAZ

Mais uma vez
vão embora todos do bar.
Levanto meu copo 
pela última vez e espero
que o mundo gire
e me tire para dançar
em um último suspiro.
Quando caminha-se diante
do precipício teme-se
que não consigamos
controlar o desejo insano
de pular ao infinito
do nada.
Conspirei as piores notícias
para que não pudesse
mais poder entender
o que se passava.
De todas as drogas as
que eles mais gostam,
é o dinheiro.


-----------------------------------------------------------------

Gênios surgem todos
os dias.
Buscam nas feridas a
essência de suas
genialidades.
O mundo vasto que
encobre cada coração
perpetua suas dores
e o público joga
cascas de bananas e
tomate.
Buscam no ego o
ponto fraco dos gênios
e deslizam-os para fora
das rodas.
Quando tudo se vai
terminam em suas casas
criando obras eternas para
que os que desprezaram-os
tomem conta dela
quando eles se forem.
O trabalho artístico é
uma merda visto pela
cabeça de um
professor universitário.


---------------------------------------------------------------------------

naquele dia ela chegou
e já foi logo arrumando
a cama e dizendo
coisas enquanto arrumava
a cama.
então abri a janela pra
entender o que ela dizia.
que tudo era um inferno quando se
tratava de mim. ela dizia:
"você é um covarde."
desde 1992, quando no
hospital santo agostinho,
eu viria nascer.
eu diria a ela mais tarde que
as coisas são difíceis quando
se é um psicofrango.
ela ria.
eu agradecia por ela me suportar
por tanto tempo
mesmo quando estive longe.
as coisas quase nem sempre
eram do jeito que queríamos.
acendíamos um beck
e ela contavam sobre tudo o
que passava na tv,
enquanto em vão eu tentava
ignorar a tela.
tudo aquilo era uma terapia.


---------------------------------------------------------------------------

Ela vira o corpo
em sentido a mim e
conta a última aventura
por qual ela passou.

95% das mulheres que conheço
não sente atração por mim.
Sempre fui um bom amigo.
Digo a ela que há tempos
torcia por ela.
E por isso toda vez que
que eu andava na rua
as pessoas mudavam de calçada.
Poemas de amor também
podem falar de quando
não se é amado.
Então você traga o beck
e joga toda a fumaça no meu rosto.
Incrível como eu viajo e
você continua intrigada com
o joguinho do seu celular.

-----------------------------------------------------------------------------

No tempo que
vivia na casa dos outros,
comendo com os outros
e esquecendo de mim.
Não corria pelos becos,
não gritava por aí.
Meu silêncio era seu.
Você tentou,
eu sabotei.
Você ficou,
eu fugi.
Os automóveis continuam
sem parar nas faixas de pedestres.
Um mosaico de cores
que vai embora junto
com o pôr do sol.


///

quinta-feira, 20 de julho de 2017

----------------

Por: Edu Planchêz

diego e o cachorro, 
o cachorro e o diego, 
satélites movidos 
pelo vórtice azul 
dos anéis amáveis do som



segunda-feira, 17 de julho de 2017

NÃO VOU ME RENDER

Por: André do Amaral

Não serei arrastado na lama que rompeu a barragem que impedia a barbárie.
O país não é só isso.
Para cada Gilmar Mendes, tem um Manoel de Barros.
Para cada Aécio Neves, tem um mestre de Congada resistindo à opressão nas mesmas terras mineiras.
Para cada Michel Temer, um Mário de Andrade na paulicéia.
O país não é só um branco de gravata ou toga.
É vermelho na pele indígena.
É preto potente na pele da menina.
É um guri, um piá, um curumim.
É trans!
É trem bão, é da hora, é sinistro, é massa! Ainda que não pareça, passa.
E eles passarão.
Desanima, não.
Menos preocupação e mais ocupação.
O país, novamente, está sendo saqueado. Seu povo pobre dizimado.Mas, até por uma questão de lógica, enquanto estivermos vivos não dá pra decretar derrota.
Minha energia.Meu pensamento e meu afeto se movem pela transformação e pela justiça social.
Para que pessoas não morram pela cor da pele.
Pela orientação sexual.
Por denunciarem injustiças.
Por serem quem são.
O país não é só o Planalto.
A injustiça suprema.
Homens asquerosos.
Um país reacionário.
Quadrado.
É também roda.
De samba.
De capoeira.
De poesia.
É uma espiral.
É a mata, os bichos, as ervas, a arte, o povo.Tudo que nele brota.
É uma idosa distribuindo sopa e cuidando de pessoas em situação de rua.
É uma benzedeira curando as crianças da comunidade.
É um professor mal pago e apaixonado mudando a vida de crianças e jovens.
É um poeta desconhecido.
Uma dançarina sonhadora.
Uma enfermeira incansável.
Um músico genial.
Um gari cantarolando enquanto varre.
Um garçom simpático.
Uma cozinheira incrível.
Um sábio pajé.
Uma mulher quilombola líder comunitária.
Uma criança alcançando o paraíso na amarelinha.
Um bando de gente linda e anônima.
O Brasil é imenso!
Desistir dele é deixar de perceber a beleza que nele contém.
Abrir mão da potência que dele provém.
Vamô junto!
Contra a perda de direitos e o desmonte do país, o lema do povo guerreiro:
"Só a luta muda a vida!"