quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Gabriel Augusto (1991-2026): a arte dark silenciou...

  Por: Diego El Khouri 




O mundo perdeu a presença física de um ser humano incrível. O  planeta Ficou mais frio,  mais chato, mais insensível. 

Gabriel Augusto era um grande artista. Deixa um puta legado, uma obra contundente, corajosa que nunca será esquecida. A história  não  vai se calar perante o seu talento.

Conheci ele por volta de 2016 / 2017, através do tatuador Hélio Nascimento, o Helião. O Helião queria me apresentar esse maluco que tinha uma obra absurda, mas estava meio perdido, sem saber por onde começar para organizar sua primeira exposição.




Eu vivia um momento muito profícuo na época, com várias exposições acontecendo no Brasil e fora, individuais e coletivas, inclusive algumas simultaneamente. Quando o Helião me mostrou o trabalho do Gabriel, fiquei impactado. Chapei mesmo!

Cheguei a tentar entrevistá-lo para o canal no YouTube, mas ele era tímido com as câmeras. E no fim, nem precisou de ajuda. Ele mesmo abriu seu caminho e alçou voos muito longe.



Rompeu totalmente a  bolha de Goiânia. Hoje a obra dele está em coleções particulares de 15 países. Fez parte, por exemplo, dos coletivos Déstructuralisme  Figuratif e Dark Art Society, que abriu portas pra mostras  na França e nos EUA.



Esse múltiplo poeta do absurdo, das cores mórbidas e bizarras, começou a desenhar com sete anos de idade no Museu de Arte de Goiânia. Depois fez SENAC e entrou na UFG em 2014, no curso de Artes Visuais. Foi nesse contexto que comecei a conviver mais com ele.

Era um cara que já tinha essa pegada dark, muito esfumaçada, com crânios, caveiras, principalmente crânios, e uma produção compulsiva. A estrutura engessada e careta da universidade não entendeu esse talento. Um professor,  inclusive, pediu pra ele abandonar esse lance de pintar crânios. Ele se exilou da sala de aula e ficava pelos corredores desenhando compulsivamente, até tomar a decisão mais ousada da vida dele: abandonar a faculdade e tudo para viver exclusivamente da arte.

Com isso, se tornou também um grande tatuador. Sua tattoo perambulava entre fineline  e blackwork, mas sempre com foco autoral,  não comercial. 

* Tattoos que Gabriel fez no  Diego El Khouri
 

Transitava, portanto entre múltiplas linguagens, como a pintura, a tatuagem, a escultura. Ele certa vez disse que acreditava "que todo tipo de arte se conecta entre si", por isso ele diversificada tanto nos materias.




Já a poética era a mesma: obras mórbidas quase cheirando enxofre. Rostos desconfigurados,  corpos dissecados,  cores frias, escorrendo tinta, emulando carne em putrefação. O retrato de uma sociedade doente, solitária, rostos sem forma, sufocados,  enforcados, dilacerados, à beira do precipício do século sinistro. 

Gabriel Augusto partiu no dia 23 de setembro de 2026, aos 35 anos, na porta de  sua casa, quando chegava do treino, vítima de um infarto.  E o mais chocante é que ele já tinha uma exposição agendada para esta semana. Neste sábado, dia 26 de setembro, às 11h, sua obra integra a mostra comemorativa de 45 anos da Galeria Tina Zappoli, em Porto Alegre (RS), a coletiva A ARTE ALI, que reúne 25 artistas que fazem parte da história da galeria.



* Na foto: Diego El Khouri e Gabriel Augusto 

Quando  eu e o Fabio da Silva Barbosa criamos a  Editora Merda na Mão, com a proposta de publicar os impublicáveis, ficamos imaginando qual seria a logo. Fizemos alguns desenhos rápidos, mas logo definimos que seria um braço, uma mão jogando um cagalhão pra frente de quem estivesse vendo.


E pra ficar um desenho diferente de tudo, resolvi colocar nesse braço as tatuagens que o Gabriel fez no meu braço direito. Eu tenho o braço direito inteiro tatuado por ele, e as costas também, tudo fechado com desenhos dele. Tudo freehand. Ele ia criando na hora e tatuando.



Um dia, me encontrei com ele pra entregar algumas publicações da Editora Merda na Mão e, tomando cerveja, a ficha dele caiu: "Porra, essa tatuagem da logo é a tatuagem que eu fiz em você!". Foi muito divertido ver a reação dele.

Então, enquanto a Editora Merda na Mão existir, ela vai carregar sempre um pedaço da arte dele. Ele partiu em Goiânia (onde moro) e sábado já tem outra exposição sua em Porto Alegre (onde Fabio mora): dois criadores dessa editora de vários  tentáculos e que publica obras subversivas e indigestas.




***

Hoje acendo o cânhamo em frente à janela. A cidade em chamas, a cidade-necrópole, a cidade-vertigem... O caos urbano batendo lá fora e aqui dentro... Sopro a fumaça, essa mesma fumaça que tantas vezes compartilhamos... Entre conversas, risadas, reflexões e bebidas... Fumaça, vapor e imagem... te conhecer foi um privilégio,  camarada!... 

Quando eu partir espero deixar boas lembranças nas pessoas como você deixou em todos nós... Talento imenso e humildade gigante, atitude e inquietação... Honestidade e dedicação...


E a fumaça  prossegue... Vá em paz, amigo...






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