Contra todas as estatísticas, seguimos publicando os impublicáveis.
O ano se finda como uma bomba atômica na cara do século sinistro. A cortina se fecha, mas a resistência não. Resiliente como um Buda em transe, raivosa e subversiva como uma tempestade violenta invadindo mentes, embriagante e chapada como droga pesada… a Editora Merda na Mão continua, contra todas as estatísticas e especulações.
Foi um ano louco. Mudanças acontecem e a guerrilha necessita dessa mobilidade de ação. Não pode ser fechado, enclausurado dentro de si mesmo. Ser realmente "metamorfose ambulante", fênix quebrando vidraças, poesia nua e crua invadindo becos e salas, a arte como processo contínuo e intenso de revolução.
Quando esse espaço de publicação independente nasceu, em 12 de abril de 2020, em plena pandemia, com a extrema direita em ascensão, fascismo escancarado, genocídio indígena e tantas outras tragédias, a ideia era fortalecer a cena cultural, registrar memórias e abrir caminhos para colocar no mundo concreto o que já pulsava no campo das ideias. Vozes que, dentro dessa sociedade capitalista, competitiva e excludente, eram sistematicamente silenciadas.
Trampar de forma autônoma e sem apoio é coisa de maluco — exige força bruta, resiliência e insistência diária, senão a parada não se sustenta. Em quase seis anos de existência e resistência, foram cerca de 60 publicações (entre livros, zines e HQs), sem cobrar um centavo dos autores — algo praticamente único no mercado editorial. Soma-se a isso programa de rádio, distro (com CDs de diversos selos, nacionais e principalmente internacionais), o selo musical da Editora Merda na Mão, Ruídos Absurdos, o projeto War Brain, de noise experimental performático poético, além de festivais, saraus e outros delírios
Tudo isso só foi possível graças às mentes ousadas de Diego El Khouri e Fabio da Silva Barbosa. Este último precisou se afastar do projeto para cuidar de questões pessoais, mas segue presente: novas publicações assinadas por esse maluco chegam em 2026 — Frida Carla – A advogada mais ousada do Brasil e Carniça: A Apologia da Destruição – Substâncias ilícitas, crimes e outras especiarias, dois quadrinhos roteirizados por Fabio e desenhados por Diego. Nesta entrevista, Fabio fala sobre essa nova fase: https://fetozine.blogspot.com/2025/10/o-escritor-do-submundo-um-papo-com.html.
Com a saída do parceiro, Diego assumiu a parada sozinho, ralando pesado nos bastidores para manter a chama acesa. No ano anterior, vieram reveses brutais: golpe financeiro de gente da própria cena, luta diária pela sobrevivência, falta de equipamento, além de outras situações ainda mais pesadas — que não cabem aqui, já que a ideia deste texto é outra: fazer um breve balanço de 2025.
O artista visual Diego El Khouri segue firme, ao lado de sua companheira Lívia Batista, no projeto Ruas e Cores: Hip-Hop em Tela, no qual traduz a cultura Hip-Hop em pintura, gesto e memória urbana. A exposição reúne 12 telas em óleo sobre tela que retratam figuras do Hip-Hop goiano, em diálogo direto com a resistência das ruas. Atualmente em cartaz no Museu das Bandeiras, na Cidade de Goiás, até 14 de janeiro, o projeto ocupa um espaço que já foi cadeia, ativando sua memória densa e conectando-a à luta ancestral do Hip-Hop. Além desse trabalho, os artistas desenvolvem o projeto Urbanidade e Memória — Arte Negra e Descolonização do Olhar, em Aparecida de Goiânia. Ambos os projetos têm produção cultural e curadoria de Lívia Batista, idealizadora da Mova-se Projetos Culturais.
Muita coisa era para ter sido lançada este ano, mas foi preciso, antes de tudo, resolver várias questões. Por isso, reafirmamos a importância do trabalho intenso nos bastidores. Nos primeiros anos da editora, houve um fluxo grande de publicações, mas no underground as turbulências são constantes — ainda mais com o tipo de trabalho que a gente faz, combativo ao extremo. Nosso coro é casca grossa. Nada pode nos parar!
E, imaginando novos meios para continuarmos publicando os impublicáveis, pensamos em novas formas de atuação. Como todo trabalho de guerrilha, é preciso ser estratégico e não se enclausurar na mesma ideia, como já foi dito no início deste informativo. Conversando com outros autores, chegamos à Uiclap, uma plataforma de autopublicação sob demanda que permite publicar, imprimir e vender livros sem custo inicial, cuidando da produção e da distribuição conforme a demanda. Inclusive, adquirimos um livro da escritora de terror erótico Indy Sales para avaliar a qualidade do material, e o resultado nos agradou. Na Editora Merda na Mão, sempre priorizamos a qualidade do suporte, além do conteúdo, claro. O camarada Fabio da Silva Barbosa, por exemplo, vai publicar a coluna Arquivos Explícitos, originalmente veiculada no blog Metal Reunion Zine (https://metalreunionzine.blogspot.com/), agora em formato de livro pela Uiclap.
E, dito tudo isso, eis que acabamos de publicar mais um livro pela Editora Merda na Mão:
Coração enrolado em arame farpado & outras tretas rolando é poesia de asfalto, escrita com o corpo em risco. Gutemberg F. Loki, poeta independente e vocalista da banda Leptospnoise, leva para o livro a mesma fúria do noise punk e do hardcore sujo. Aqui, o amor falha, a cidade sufoca e o tempo cobra juros.
Os poemas escorrem como um blues torto, atravessados por ruído urbano e urgência política. Nada é simbólico demais; tudo é vivido. Os versos parecem nascer entre um gole e outro, sem promessa de redenção. É livro de quem anda no acostamento, mas continua.
Literatura marginal, direta e sem pedido de desculpa. Palavra distorcida como guitarra no talo. Editora Merda na Mão em estado bruto.
Mais uma publicação da Editora Merda na Mão.
Capa e contracapa:
57 páginas
* Agradecimentos a Fabio da Silva Barbosa, por conectar Gutemberg à Editora Merda na Mão e acender esse encontro. E, sobretudo, a Lívia Batista — sem sua força, sensibilidade e trabalho incansável, esta obra não teria atravessado a ideia para existir no mundo. Gratidão pela confiança, pela paciência e pela parceria ao longo de todo o processo.
Caricatura de Gutemberg F. Loki feita por Diego El Khouri
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Poesia de asfalto, ruído urbano, urgência política e vida vivida no limite.
editoramerdanamao@yahoo





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