segunda-feira, 31 de julho de 2017

SONETOS DO GLAUCO MATTOSO



SONETO REMONTANDO A 1951


Minha cronologia principia
no dia de São Pedro. De glaucoma
já nasço portador, mas, nesse dia,
só querem que se beba e que se coma...

Sou neto de italianos, e a mania
é dar diminutivos: no idioma
de Dante, sou Pierin. Me oferecia
um brinde o bisavô, que vinho toma...

Pierin, ou Piergiuseppe, dura pouco.
Já sou Pedro-José. O ouvido mouco
não é, mas um dos olhos já pifava...

Na foto, faço gestos algo obscenos,
unindo dois dedinhos: já pequenos,
mostravam a revolta: "Vão à fava!"


****

SONETO REMONTANDO A 1999

Me veio sem aviso: após o gozo
noturno, entre uma insônia e um pesadelo,
percebo que a memória é poderoso
recurso e que preciso conhecê-lo...

Sucedem-se os sonetos: volumoso
parece ser o veio... Em breve, o selo
Ciência do Acidente dum Mattoso
febril publica a praga, o berro, o apelo:

Entre uma "Centopéia" e uma "Geléia
de rococó", completa "Paulisséia
ilhada" a trilogia que hei criado...

Começa a nova fase, que não finda
nos mil, nem nos dois mil, pois muito ainda
virá calar quem quis me ver calado...

***

Soneto 49
Versátil

A crítica que tenho recebido
é quanto ao tema, não quanto ao formato:
"O Glauco trata só de pé e sapato,
ainda que use o molde mais subido."

Respondo antes de tudo por Cupido:
comigo ele jamais teve contato.
Além do mais, não vou deixar barato
que assunto algum me seja proibido.

Sou cego mas eclético, e versejo
acerca de problemas tão diversos
que nem forró, barroco e sertanejo.

De grandes e pequenos universos
é feito o pé que cheiro, beijo e vejo:
A Ele presto conta dos meus versos.

***



Soneto 73
Obsessivo

O gosto pelo pé ficou mais forte
depois que as trevas foram preenchendo
o fundo do meu olho, neste horrendo
martírio, mais agônico que a morte.

Agora nem desejo a mesma sorte
que alguns outros mortais prosseguem tendo
de conviver a dois, e só me entendo
servindo a qualquer sola de suporte.

Só penso nisso, em sonho ou acordado.
Masturbo-me na tímida ilusão
de amanhecer debaixo dum solado.

Aquele que em rosto dá o pisão
é sempre um tipo mal-acostumado,
e nunca a projeção duma paixão.

***



Soneto 26
Lírico

Dizem que o amor é cego e a carne é fraca,
mas só amei alguém quando enxergava.
Hoje a cegueira queima como lava
e o coração resiste a qualquer faca.

Ontem tesão, agora sóressaca.
Foi-se a paixão que fez minh'alma escrava.
Se inda me queixo dessa zica brava,
sou caçoado e passo por babaca.

Nem tudo está perdido: resta o cheiro
que invade-me as narinas quando passo
na porta do vizinho sapateiro.

Vá lá: o papel que faço é de palhaço.
O olfato é meu recurso derradeiro
e o cheiro do fetiche o único laço.

***


Ensaístico [241]

Chamemo-la de fase iconoclasta,
à minha poesia antes de cego.
Pintei, bordei. Porém não a renego.
Forçou-me a invalidez a dar um basta.

A nova não é casta, nem contrasta
com velhas anarquias. Só me entrego
ao pé, onde em soneto a língua esfrego.
Chamemo-la de fase podorasta.

Mas nem por isso é menos transgressiva.
Impõe-se um paradoxo na medida
da forma e da temática obsessiva:

Na universalidade presumida,
igualo-me a Bocage, Botto e Piva.
Ao cego, o feio é belo, e a dor é vida.

***

 SONETO 274  PACIFISTA (GR)
Apelos pela paz são comoventes:
Parece até que toda a raça humana
ou quase toda, unânime, se irmana
na firme oposição aos combatentes.

Campanhas e cruzadas e correntes
envolvem muita mídia e muita grana,
mas nada se compara à força insana
do génio armamentista em poucas mentes.

Pombinhas, flores, nada disso importa
na hora da parada militar,
se acharmos que o perigo bate à porta.

A fim de protegermos nosso lar,
deixamos que haja tanta gente morta,
mas não aqui: só lá, noutro lugar.

***

SEGUNDO SONETO SÁDICO

      Nos “120 dias de Sodoma”
      o Mestre prioriza a merda pura,
      que consta do menu como mistura,
      e sempre há no banquete quem a coma.

      A merda é náusea em cor, sabor, aroma.
      Comê-la é só um requinte de tortura
      que põe papas e reis de pica dura
      enquanto o povo a prova em França ou Roma.

      Na época, o Brasil, colonizado,
      pagava a Portugal todo seu ouro
      e, em troca, o Alferes era esquartejado.

      No século atual, quem lambe o couro
      é o cego, num sapato já mijado
      e sujo até de letras do tesouro...”

***

SONETO 951 NATAL
Nasci glaucomattoso, não poeta.
Poeta me tornei pela revolta
que contra o mundo a língua suja solta
e a vida como báratro interpreta.
Bastardo como bardo, minha meta
jamais foi ao guru servir de escolta
nem crer que do Messias venha a volta,
mas sim invectivar tudo o que veta.
Compenso o que no abuso se me impôs
(pedal humilhação) com meu fetiche,
lambendo, por debaixo, os pés do algoz.
Mas não compenso, nem que o gozo esguinche,
masoca, esta cegueira, e meus pornôs
poemas de Bocage são pastiche.

***

 SONETO ESCATOLÓGICO

      “Cagando estava a dama mais formosa...”
      Assim falou Bocage num soneto
      do mesmo naipe deste que cometo
      sobre a reputação que a merda goza.

      A crítica a compara à rara rosa
      se obrada na miséria dalgum gueto.
      Políticos proferem-na: “Eu prometo...”
      e a mídia a tematiza em verso e prosa.

      É tanto incompetente apadrinhado
      fazendo merda e sendo promovido
      que, quando comecei o aprendizado,

      pensei: “Que seja próprio o seu sentido,
      porque já me enojei do figurado!”
      E então fui rei da merda com que agrido.

***

PARA UMA DANÇA A DOIS

Um meia-nove é fácil que nem valsa.
Ficamos, eu p'ra cá, você p'ra lá.
Aqui na cama, o espaço sempre dá.
Espere eu só tirar a minha calça.

"Rancheira", antes chamavam. Está é falsa.
A verdadeira é "Lévis". Mas não vá
mudar o nosso assunto, porque eu já
estou notando o tênis que vê calça.

Na valsa, tinha até patinadores,
mas neste nosso rock é só botina
e tênis. Só variam, mesmo, as cores.

Papai-mamãe é chato, pois termina
depressa. Um meia-nove tem sabores
tão fortes quanto a meia ou quanto a urina.

***


SONETO 251 QUANTITATIVO

Centenas de sonetos são legado
de nomes tidos como monumentos.
Apenas de Camões, mais de duzentos,
registro que é por poucos superado.

Não fossem os Lusíadas o dado
que faz dele o primeiro entre os portentos,
ainda assim Camões marca outros tentos,
e, entre outros tantos, este é consagrado:

"Sete anos de pastor", o vinte e nove,
que, se não for mais belo, é o mais perfeito,
a menos que em contrário alguém me prove.

Mas, como dois é dom, três é defeito,
também um "Alma minha", o dezenove,
ocupa igual lugar no meu conceito.
***
Glauco Mattoso, pseudônimo  de Pedro José Ferreira da Silva, ( São Paulo, 29 de Junho de 1951) é um escritor brasileiro. 
Seu nome artístico é um trocadilho com glaucomatoso, termo usado para os que sofrem de glaucoma, doença que o fez perder progressivamente a visão, até a  cegueira total em 1995 . É também uma alusão a Gregório de Matos, de quem se considera herdeiro na sátira política e na crítica de costumes.

* Link das duas entrevisats que fiz com Glauco Mattoso: http://coletivozine.blogspot.com.br/2013/07/glauco-mattoso-o-poeta-da-crueldade.html

Nenhum comentário:

Postar um comentário