sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Por: Edu Planchêz Maçã Silattian


"o apocalipse deixou de ser um medo

e se tornou uma esperança", o fim da pança,

da esperança de quem pouco ou nada compreende,

dos que nunca foderam com os meus poemas,

com poemas de Joka Faria, 

com os poemas de Diego El Khouri,

de roberto piva, de allen ginsberg, 

de mário quintana e da puta que pariu


se você compreende que estamos no fim,

se fode, se fodeu, nos fode,

e nos foder é algo lindo aqui pelo dias de natal


vos digo que estou com o pau ardendo,

com as hortências erguidas nas águas das enchentes 

que se foram, que por nossos bons corações

jamais voltarão


esse é o apocalipse do poema, 

dos fodemas dos cus das bocas da morte aliada,

da soberana e inigualável vida 


pelas nossas baixas 

e altas pressões arteriais e ventrais

que desatam os cadeados,

que provocam em nossos sexos, 

temporais de arco-íris repleto de novas janelas,

de corredores de mármore e pedra sabão


sou o que colhe das gaitas, do clarinete e do violão,

o único, o primeiro e o último blues,

vidente que nem tu vendo 

o grande rock, a mesma estrada,

o estradar de nossos pés patinadores de palcos




domingo, 8 de dezembro de 2024

Apoie iniciativas realmente independentes e mergulhe no universo da cultura subterrânea

 


Diego El Khouri:
Reboco Caído é uma  publicação clássica com mais de 10 anos de resistência e existência, criada pelo escritor, jornalista e educador social Fabio da Silva Barbosa. Um painel importante da cultura independente do país. Este zine ganhou o prêmio Fanzine 2016, no segundo Gibifest de Alvorada, em 2017. 
Fabio sempre foi um trabalhador da cultura, um ativista engajado, um guerrilheiro incansável pelo bem estar social. Tanto seu trabalho como escritor (com várias obras publicadas), jornalista (entrevistando uma gama imensa de artistas) ou sua imersão em abrigos (se destacando de forma incontestável com seu trabalho nestes espaços), são referências pra toda uma cena cultural no Brasil e fora dele... Mas tem momentos na vida, que até conseguir o básico para sobreviver fica difícil. Não é nada fácil ser um escritor independente nesse terceiro mundão colonizado e explorado por elites econômicas perversas. 
Fabio, que também é um dos idealizadores da Editora Merda na Mão, espaço que tem a proposta de publicar os impublicáveis, está neste momento crucial de sua produção artística. Para a sobrevivência deste importante veículo da cena underground, contamos com o apoio de todos vocês.  Qualquer quantia para colaborar na impressão do  Reboco Caído número 69 se faz necessária para continuar a caminhada deste zine de resistência e luta. Abaixo o pix para quem quiser contribuir (favor, ao colaborar, enviar o e-mail confirmando)
fsb1975@yahoo.com.br
O email é o mesmo para contato e para o Pix.

Fabio da Silva Barbosa:
Quem acompanha meu trampo de perto, sabe das inúmeras dificuldades que passo devido a minha dedicação a cultura subterrânea (contracultura, cultura underground... ou como queiram... isso não é o mais impostante, nem o ponto a se chegar.) e pela recusa constantemente a me adaptar ou fazer concessões. Mas isso é um problema só meu e ninguém tem nada a ver com isso. O preço que pago é devido a minhas escolhas pessoais e não poderia fazer diferente por questões de caráter, convicção e posicionamento. Mas a questão fundamental que trago a tona aqui, é a impressão e distribuição do novo número do meu zine, o Reboco Caído. Por diversas vezes este veículo só saiu devido a colaboração de pessoas que realmente acreditam na ideia e desejam a continuidade deste artefato explosivo. Continuo então a campanha de arrecadação de fundos para uma tiragem legal e ainda o correio, mantendo a distribuição gratuita, sempre aceitando a contribuição voluntária dos que podem ou querem cooperar para novas reproduções. Embora trabalhe também com a versão digital, abandonar a impressa não é uma opção.
Então, conto com todos que realmente acreditam nesta cultua combativa e de resistência.
Já, de antemão, agradeço aos que enviaram as primeiras contribuições logo que comecei a campanha. 

Outras postagens sobre:

https://editoramerdanamao.blogspot.com/2024/11/a-capa-do-reboco-caido-69-ja-esta.html

https://editoramerdanamao.blogspot.com/2024/10/a-campanha-para-arrecadacao-de-fundos.html

https://noisered.com.br/reboco-caido-69o-numero-e-um-apelo-por-mais-revolta-e-resistencia/
 


terça-feira, 3 de dezembro de 2024

O desatento

Por Fabio da Silva Barbosa


Sentada em uma velha cadeira de praia

prestes a quebrar

parecia uma rainha

a senhora da beleza e da elegância


Sentada bem ao lado

da lixeira que transbordava

parecia a mais bela flor

nascida de todos aqueles detritos


Seus movimentos

eram os mais graciosos passos de dança

Mesmo sentada

seu corpo bailava ao menor tremor dos braços


O barbudo coçou os longos pelos do queixo

deixando cair um pouco do macarrão azedo 

que estava pendurado neles

Continuou a andar sem prestar muita atenção ao que acontecia

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

O poeta morreu

Por: Rogério Skykab 


"O poeta morreu".

Uma notícia entre tantas.

Você acorda e se depara com ela,

a morte-noticia.

Nada vai destituir a sua condição.

Lembro que o vi mais de uma vez no metrô.

Mas isso é pouco.

Certamente ninguém ali o conhecia.

Um poeta desconhecido: a sua condição. 

Será isso o que o identifica?

A não ser que vire notícia:

"o poeta morreu".

Flor da ironia.


Skylab

23/10/2024







sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Poema do Glauco Mattoso em homenagem ao Antônio Cícero

 Aqui é o Akira! Glauco pediu para postar em 24/10:

Antonio Cicero (com quem concordo), conhescido como philosopho e lettrista, foi tambem postmoderno sonnettista e thematizou os garotos com palavras inteiras. Eis um exemplo que eu tinha excolhido para o SONNETTARIO BRAZILEIRO, site que organizei tempos attraz e que ficou devendo a inclusão de muita gente quando o deixei.


ONDA


Conheci-o no Arpoador:

Garoto versátil, gostoso,

ladrão, desencaminhador

de sonhos, ninfas e rapsodos.

Contou-me feitos e mentiras

indeslindáveis por demais.

Fui todo ouvidos, tatos, vistas

e pedras, sóis, desejos, mares.

E nos chamamos de bacanas

e prometemo-nos a vida:

comprei-lhe um picolé de manga

e deu-me ele um beijo de língua

e mergulhei ali à flor

da onda, bêbado de amor.


Glauco Mattoso - Escritor e amigo da EMNM

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

A despedida silenciosa do poeta

  


* O poeta e letrista Antonio Cícero morreu nesta quarta-feira, em Zurique, na Suíça, aos 79 anos. Após ser diagnosticado com Alzheimer, anos atrás, ele viajou à Europa com o companheiro Marcelo Fies com a intenção de realizar morte assistida, permitida no país europeu


 Carta de despedida do poeta:





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GUARDAR

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
do que pássaros sem voos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarde um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.


LEBLON

Para Adriano Nunes

O menino olha para o mar:
lá no fundo ele se funde ao céu;
mas atrás há um muro e aquém do olhar
pulsam sangue e morro e mata e breu.



BLACKOUT

Passo a noite a escrever.
Do lado de lá da rua
poderia alguém me ver,
daquele prédio às escuras,
em frente ao meu, e mais alto.
Que voyeur me espiaria?
De interessante, só faço
escrever. Ele veria
decerto a parte traseira
do computador; talvez,
daquela outra janela,
avistasse, de viés,
o lado esquerdo da minha
face de perfil; jamais
entretanto enxergaria
certos versos de cristal
líquido que, mal secreto
com o sal do meu suor,
e já anunciam segredos
só meus e de algum leitor
que partilhará comigo
o paraíso e o desterro,
o pranto que vem do riso,
o acerto que vem do erro.
Disso tudo, meu vizinho
nem de longe desconfia.
Mas e se ele, tendo lido
meus lábios, que pronunciam
o que na tela está escrito,
perceber-se desterrado
não só do meu paraíso:
do meu desterro, coitado?
E se ele a tudo atentar
e por inveja e recalque
me der um tiro de lá?
Melhor fechar o blackout.


O GRITO


Estou acorrentado a este penhasco

logo eu que roubei o fogo dos céus.

Há muito tempo sei que este penhasco

não existe, como tampouco há um deus

a me punir, mas sigo acorrentado.

Aguardam-me amplos caminhos no mar

e urbes formigantes a engendrar

cruzamentos febris e inopinados.

Artur diz “claro” e recomenda um amigo

que parcela pacotes de excursões.

Abutres devoram-me as decisões

e uma ponta do fígado mas digo:

E daí? Dia desses com um só grito

eu estraçalho todos os grilhões.


ÍCARO

Buscando as profundezas do céu
conheceu Ícaro as do mar

Adeus poeira olímpica
grãos da Líbia
barcos de Chipre

Adeus riquezas de Átalo
vinhos do Mássico
coroas de louro
flautas e liras

Adeus cabeça nas estrelas
adeus amigos
mulheres
efebos
adeus sol:
ouro algum permanece.



sábado, 19 de outubro de 2024

De braços abertos (contemplando o Infinito em você


Por: Diego El Khouri 


              À Lívia


abrir os braços para que a vida 

me leve ao teu colo

sentir firme o chão beijar minhas costas

na relva onde o peito alimenta a terra

 e na terra que sustenta o corpo 

e contempla o céu um risco no mar 

que molha os cabelos em desalinho 

dessa imagem que reencontro

                        em meio a escombros 

              no limiar do século 

                                                   (em andrajos)

 trajes que me banham de memória 

                    o Agora (...)

você aqui (sim) perto de mim 

acariciando seios e boca (pele) 

língua  na língua (noite quente) 

naquela quinta feira iluminada 

na noite boêmia dos poetas

 flechas  que atravessam o Infinito


Lívia, sua imagem é um divisor de águas 

que cruzou meu caminho sem avisar

"disco voador tatuado" 

que pousou em minha vida

 e me ensinou a amar (caminhar com outros pés...)


e aqui perante sua imagem

que dança num anel de fogo

te contemplo na beleza do instante 

e na eternidade do momento

que faz da vida 

                                um prazer constate.


Capa do zine "Livia" (o primeiro de uma série).




Título: Lívia 

Técnica: Óleo sobre tela

Dimensões: 30 x 25 cm

Artista: Diego El Khouri


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sexta-feira, 18 de outubro de 2024

A HQ XXI é uma chaga ferida e aberta em forma de arte sequencial


 



A HQ XXI é uma chaga ferida e aberta em forma de arte sequencial...


 Pequenos contos em forma de quadrinhos... 


O politicamente incorreto em um olhar embriagado na contracultura...


O cuspe insolente na cara do fascismo...


 A palavra gotejando sangue e pus... 


A ordem dos capítulos foram colocadas com o mesmo rigor das faixas de um álbum musical. 


O álbum já está finalizado. 


Falta agora apenas passar pela etapa da diagramação.


220 PÁGINAS


de uma HQ crítica, reflexiva, violenta, delirante, escatológica e real.


Roteiro e desenho:  Diego El Khouri 

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ATENÇÃO!!!!!

Abaixo um capítulo inédito dessa saga:







http://elkhouriartes.blogspot.com/2024/03/200-paginas-finalizadas-de-uma-hq-punk.html


Diego El Khouri recita as palavras desse capítulo em um dos episódios do programa Outsider da galáxia de parnaso:




EDITORA MERDA NA MÃO 

Publicando os impublicáveis 



https://editoramerdanamao.blogspot.com/2024/09/venha-para-o-mundo-da-editora-merda-na.html

sábado, 12 de outubro de 2024

Pelas beiras dos pés de ervas

 Por: Edu Planchêz Maçã Silattian 


pelas beiras dos pés de ervas,

ervas aqui de casa, catadas no meio fio,

dentes-de-leão nascidas entre as rasteiras gramas,

nos muros das ruas vizinhas


ervas no muro, no fundo do olho, 

no fundo da garrafa,

no silencio das estrelas,

no meu silencio,

ervas espalhadas pelas constelações

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segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Mais um exemplar do Filósofo da Maconha desembarcando no Rio de Janeiro


 


Desta vez a bagaça foi parar nas mãos de Beatryx Physis



Para adquirir também um exemplar, entre em contato com a editora enquanto ainda tem
Conheça o início da saga do homem planta e seus amigos

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Por: Eduardo Marinho

 Chamar estadunidense de americano é um vício pior do que cigarro. Faz desta nação golpista, chantagista, sabotadora, exploradora e saqueadora de outros povos, os "donos" do continente inteiro, como eles mesmos se sentem e induzem, de todas as formas, o pensamento nas Américas. É preciso senso crítico, dignidade e disposição pra ver e mudar esse olhar colonizado, este sentimento de inferioridade artificial e falso.

Gostaria que tirassem meu nome de perto dessa frase que eu não disse e não diria. Israel conta com os maiores banqueiros do mundo - que dominam países, inclusive EUA e Grã-Bretanha que, por isso, apóiam sem condições os crimes de Israel nos últimos 76 anos. Não dá pra ver como "gerente", a não ser em imagem cênica e mentirosa. Banqueiros não costumam aparecer, ao contrário. Donos dos holofotes da mídia empresarial, direcionam pra longe deles e permanecem no escuro.

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Por: Edu Planchêz Maçã Silattian

 a puta que pariu desse dia de sol descomunal 

nos quer para sempre nus nas cabanas dos pensamentos 

sobre a nudez transparentes das borboletas

que espaçam suas asas por todos os cômodos 

da casa que é minha e de minha mulher cantora arrebentante


e uma dessas borboletas deve ser, 

e é o putaço joka faria poeta furioso

donos das guerras e das guerras dos dourados e dos tilápias que moram nas quentes águas dos vulcões

dos vulcões que moram e não moram sob as carapaças 

de nossos pés caminhadores


quem?

escreve o nome

o nome do dito que se foi para a dimensão do pequeno príncipe 


pit passarell que nunca ouvi falar 

se comunica conosco através dos vãos das pedras pentelhas


a amiga serpente nos pica na ponta dos dedos, 

dos dedos de Cleópatra 

que temos nas dobras das peles do ânus

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

A carne

Por: André Santos 


Envolvendo nosso corpo, tendões e ossos. 

Ocultando a verdade primordial deste ser, como a todos os outros tão efêmero  e fugaz. 


Um lapso temporal nesta inconcebível existência. 


Átomos, células, moléculas.

O corpo,  a alma, o espírito!


Está âncora que aqui nos mantém manifestos, neste "estado de ser" em que estamos. 


Por vezes tolamente a negligenciamos. 

Mesmo cientes do inevitável retorno. 

Devido aos devaneios da mente e dos impulsos das emoções. 


Às vezes parte ela prematuramente. 

Às vezes por um pouco mais permanece, desafiando os martírios do tempo. 


Cultuada,  adorada, idolatrada.

Devorada com a voracidade dos lobos, sedentos pelo sangue que venha saciar sua fome.


Esta carne, também embriagada de calor, desejo e força. Se alimenta, resplandece e se transcende na energia do prazer. 

Tornando-se assim, parte de um outro ser.


Assim domina ela plenamente sobre todos nós terrestres.

Com sua determinação e propósito divino segue adiante.


Está matéria que toma forma. 

Este corpo em que habito. 

Dentro em breve se desfaz.

Retornando ao pó das estrelas. 


Não há como acordar sem antes adormecer. 

Talvez por isto entrelaçados em seus braços estejamos todos nós. 


Até que por fim, se vá!

E assim despertemos em algum outro lugar. 

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Rifa Cultural - Não perca essa oportunidade!!!!!!

 Por apenas 10 reais você tem a chance de levar pra casa essa arte atemporal. Adquirindo essa rifa,  vc contribui com a cena cultural  e ajuda um artista a continuar de pé  na fina arte da sobrevivência. 


               Pix: elkhourisousa@gmail.com:



                 Dimensões: 297 x 210 mm


                 Pix: elkhourisousa@gmail.com

sábado, 7 de setembro de 2024

Eu e os gatos, os gatos e eu

  

Por: Edu Planchêz Maçã Silattian 


eu e os gatos, os gatos e eu, 

Malinha lambe e morde a cara de Diego El Khouri, 

Almiscarado brinca com os gravetos que arrasto;

a fidelidade dos felinos,

a minha fidelidade ao meu amor, ao amor,

aos poemas submergidos na baba das sereias,

dos homens e das mulheres sereias borboletas 


o sexo das fadas,

o sexo das plantas e dos planos chuvosos dos céus


ele pinta com estiletes e espátulas,

eu pinto com o corpo intra ultra corpo,

e sigo miando por dentro do "expresso da noite",

blues boy dedilha sua guitarra com dedos de cerveja,

com dedos de amores excitantes,

blues boy dedilha

              ///




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Deu Merda 3 - Poesia Elétrica Primitiva Selvagem - Parte 1 : 



Deu Merda 3 - Poesia Elétrica Primitiva Selvagem - Parte 2 : 



Poesia e Poesia e Ayahuasca - Corte do Deu Merda:


terça-feira, 27 de agosto de 2024

Rosa Kapila (1952-2024) - a literatura que se eterniza

  Por: Diego El Khouri 



A escritora Rosa Kapila fez enfim sua passagem. Abandonou o corpo, roupa emprestada para caminhar nesse mundo louco e, por vezes, perverso. Essa querida amiga, doutora em literatura na USP e com uma quantidade imensa de livros publicados, faleceu no dia  25 de Agosto de 2024 (conseguindo enfim ser enterrada apenas uma semana após sua morte - esses detalhes de um país que não valoriza seus artistas ) numa morte bem estranha e que merecia ser investigada. Não irei fazer nenhuma acusação porque o caso é complexo, mas que mexe muito comigo devido as circunstâncias que ocorreu. Mas agora é o momento de registrar sua imensa contribuição nas artes e na educação, professora dedicada que foi até o dia de sua merecida aposentadoria.

Conheci essa combatente literária em 2012, ano que me mudei para o Rio de Janeiro, capital da boemia. Eu já tinha perambulando nessa cidade contraditória em 2010 para conhecer o mano Fabio da Silva Barbosa, editor do zine Reboco Caído e o maluco que criou comigo a lisérgica punk Editora Merda na Mão. 

Essa segunda ida a essa cidade foi a convite do poeta músico Edu Planchêz Maçã Silattian. Ele tinha postado no YouTube um vídeo recitando um texto meu chamado "Manifesto em favor da poesia Marginal" (https://youtu.be/6j6KJA2MpVs?si=ZWNTE_WaLYKIi0ZT ) e nessa postagem Edu fazia a convocação: que apareça o autor(!). E durante 1 ano ficamos "nos procurando" (eu tinha visto o vídeo,  mas não sabia quem era o edu e vice e versa). Cheguei em 2012 no Rio, doente, fudido, alucinado, quase fui assassinado em São Paulo durante a viagem (em breve vou escrever com detalhes essa saga louca que vivi)... Mas fui muito bem acolhido por esses queridos irmãos de ofício. Eles contribuíram pra que eu saísse do inferno mental e físico que   naquele período tão pesado da minha existência estava soterrado! Rosa é ex esposa do Edu e mãe de seu filho, o Ícaro Odin.

A última vez que vi a Rosa foi  em um sarau no ano de 2014 organizado pelo ator Paulo Beti e pelo jornalista Paulo Maia no teatro da Gávea. Nesse dia meus quadros  fizeram parte do cenário do palco e muita gente foda se apresentou nessa noite: Jards Macalé (no qual fumei um baseado com ele), Ava Rocha, a banda Blake Rimbaud (que tem o Edu como cantor, compositor e idealizador) , a Rosa Kapila, entre outros. 


Ela deixa um legado importante. Recomendo que procurem sua vasta obra literária nas livrarias, sebos e internet.



Abaixo deixo alguns de seus poemas:



SE FECHO OS OLHOS FICA DE NOITE 

Olho a chuva de minha janela do quarto.

Um lençol de nuvens escuras cobre o Cristo Redentor

Como a chuva é linda.

Se não fossem as velhas fadigas...

Eu quero a boca do paraíso.

Vi um bicho pulando com seu terceiro pé

/depois, ele salta em cima de vidro pisado

Sempre fui iludida pelos mitos.

Sofri.

As línguas dos mares me deixam esbodegada

Avanço... arrastando-me

O bicho voa.

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VULTO DO CREPÚSCULO


Canto para um vulto do crepúsculo

/ e penso que você me ouve

Tenho nas mãos suaves contas

/ com as quais vou fazendo um colar

Do outro lado de mim uma latinha com uvas pretas.

O coração, parece que está no lugar... pelejando

Estou sentada na areia de uma praia

/ ondas frenéticas tentam me banhar.

Como a noite vem caindo, cavo um buraco

/ na terra e coloco os caroços das uvas.

Minha boca areada olha para o céu.

Os grãos de areia que permanecem em meu corpo

/ seguem comigo pela Vieira Souto.

Ao longe eu o vejo, é ele o vulto do crepúsculo.


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NO DIA EM QUE EU  ECLIPSAR-ME

“Dou o nome de violência a uma audácia

em repouso apaixonada pelo perigo.”

( Jean  Genet. In: Diário  de um  ladrão )



No dia em que eu  eclipsar-me

Minha faca vai: cortar o fogo.

Virarei uma víbora com dentes iguais

/aos da onça que fuma  em meu sonho.

No dia em que eu eclipsar-me

/vou dar portada na cara.

De sangue no olho

/vou queimar essa civilização de papel.

No dia em que eu eclipsar-me

/vou  cortar teu couro tão bem cortado

/que nem Deus vai conseguir costurar.


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EU SOU UMA NAVALHA E CORTO MEUS AMORES

“Contemple a sua amante  - Pedra!”

( Hart Crane. In poema:  Medusa. )


EU SOU UMA NAVALHA

E CORTO MEUS AMORES

EM MINHA AUTO-APRECIAÇÃO INGÊNUA.

PRECISO DE UM PEIXE-VELA

PARA SUBSTITUIR   TODAS  AS LUZES

OU UM  VAGA-LUME

A MAIS SIMPLES  DE TODAS

AS LÂMPADAS  NATURAIS

TUDO POR UMA LUZ

TORNAR A NOITE TOLERÁVEL!

SALTO DO PENSAMENTO

TRAÍDOS SOMOS

ENQUANTO DORMIMOS

SÃO AS AÇÕES  DAS TREVAS

SOU  HABITANTE DE UM ELEMENTO

ESTRANHO

FILHA DE UMA ESCOLA  NOTURNA

COMO SERÁ QUE FOI A VIDA NOTURNA

ANTES  DA ELETRICIDADE?

PULEI PRA NOITE

QUANDO AS HORAS  DO DIA

FORAM   FICANDO CONGESTIONADAS

PARA MEU BEL PRAZER

PASSEI A VIDA INTEIRA

CONQUISTANDO A NOITE

MUNDO SEM SOL

QUE ME VENHAM TODAS AS VELAS

GOTEJANTES!


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( POEMA DE ROSA KAPILA )


Taiguete no caminho dos hibiscos




O cheiro fica pra mim mesma


O libreto molhado para Taiguete de tranças


Duas bruxas perigando voar.


Exauridas.


Quanto mais insuportável


Mais cedo o poema vai saindo.


Cisco no olho no caminho da floresta


/ e fantasmas nos arruínam em gritos aloprados.


Medo no turbante que veio de Angola.


Parecem palmas à distância


/ ou uma ceia com rabanadas.


Pássaros enchem a barriga


Os jacarés vomitam uma gosma verde.


As folhas são lindas e nos ouvem


Temos pratos, panelas e um cão amigo


/ porém sinto cheiro de bife.


O viajar do olho: floresta dos hibiscos


Taiguete corre e começa a cavar


/ arranca seus livros enterrados


As vestes dos livros estão imperecíveis.


A amiga teria aprontado alguma feitiçaria?


Penso em ciclopes


O mar habitando a poucos quilômetros


/ fogueiras, o bife na salmoura, princesas, mamão


/papaia, trevas, algum abutre pulando em minha lombar


Os hibiscos estão abertos, cheirosos.


Os livros, fechados e amarrados.


Mais poemas no blog: http://rosakapilaescritora.blogspot.com/

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Livro que ganhei da Rosa Kapila em 12 de Agosto de 2012:







Rosa Kapila, contista piauiense, é autora de 13 livros de ficção - Primeiro manuscrito das tentações, Pulso de lamê, Papik o menino que nasceu na neve, Quando mamãe souber, O agito dos amores dentre outros. Premiada pelo MEC/Unesco com o livro Felizes são os gatos. Doutorou-se em Literatura Brasileira (com tese em Mário de Andrade) pela Unesp de Rio Preto. Professora Universitária aposentada.